15 ANOS DE IMPUNIDADE: O CASO LUIZ FERREIRA E O MARASMO QUE ENVERGONHA A JUSTIÇA DE ALAGOAS

Há exatos 15 anos, Anadia perdia o médico Luiz Ferreira assassinado. O crime nunca foi um homicídio comum. Foi um crime político.
Ferreira não era só médico. Era liderança. Atendia onde o poder público não chegava, conhecia cada família da zona rural, denunciava a falta de remédios, de médicos, de dignidade. E por isso, era naturalmente cotado para disputar a prefeitura. Sua morte, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, calou não uma pessoa, mas um projeto coletivo.
E o que aconteceu em 15 anos?
Quase nada. Um inquérito arrastado, um processo fatiado, um julgamento adiado indefinidamente. Agora, a Justiça marca o júri de apenas UM dos envolvidos. Um. Como se um crime com toda a cara de mando pudesse ser explicado por um único executor.
É esse o marasmo que precisamos denunciar.
A doutrina penal é clara: crime de mando tem três camadas - o mandante, o intermediário e o executor. Quando a Justiça só alcança o último elo, ela não faz justiça. Ela faz simulação. Ela condena o braço e absolve, pelo tempo, a cabeça.
Em Alagoas, a gente conhece esse roteiro. O processo dorme na comarca, a defesa pede adiamento, o foro é trocado, o promotor muda, o juiz se aposenta. Quinze anos depois, testemunhas morreram, outras têm medo de falar, provas se perderam. A impunidade não é acidente. Ela é um método.
Anadia sabe disso. Nas ruas, nas casas, nas unidades de saúde onde Ferreira trabalhou, a pergunta é a mesma: por que todos os envolvidos nunca foram julgados juntos? Por que a linha de investigação do mando político, levantada desde o início pela família e por parte da imprensa local, não avançou com a mesma velocidade que se investiga um furto?
O Ministério Público e o Tribunal de Justiça de Alagoas precisam responder.
Marcar o júri de um envolvido depois de 15 anos não é vitória. É atestado de fracasso. É a confissão de que o sistema não consegue proteger quem ousa disputar o poder no interior contra máquinas políticas estabelecidas.
Violência política não se combate só com nota de repúdio. Se combate julgando rápido, julgando todos, e mostrando que matar uma liderança tem consequência para quem manda, não só para quem atira.
Luiz Ferreira foi morto uma vez há 15 anos. Ele vem sendo morto todos os dias, há 15 anos, cada vez que a Justiça adia, cada vez que o processo é fatiado, cada vez que a cidade é obrigada a conviver com a dúvida e o medo.
Anadia não quer vingança. Quer um júri completo. Quer a trama toda no banco dos réus. Quer saber, com provas e contraditório, quem matou, quem mandou e por quê.
Sem isso, a mensagem que fica para qualquer jovem médico, professora ou agricultor que pense em entrar na política em Anadia é brutal: não entre. O preço pode ser a vida, e ninguém será punido.
15 anos já é tempo demais. Justiça tardia não é justiça. É impunidade com toga.