A Odisseia de Nolan

“Ainda restam, contudo, partes da muralha de cerco, incluindo o portão sobre o qual se erguem leões. Diz-se que estes também são obra dos Ciclopes, que construíram a muralha de Tirinto para o rei Proeto.”
Pausânias, séc. II d.C.
Pausânias foi uma espécie de guia turístico da Grécia. Ele descreve as maravilhas das ruínas das muralhas de Micenas, terra de Agamêmnon, construídas ainda na Idade do Bronze. Para os gregos antigos, pedras tão pesadas e tão bem assentadas só poderiam ser obra de Ciclopes. Os Ciclopes aparecem em uma etapa da Odisseia, filme em voga no momento. Corta!
Em respeito ao arco narrativo da Odisseia e ao próprio filme, vamos fazer aqui um corte temporal e voltar um pouco.
Odisseia, filme dirigido por Christopher Nolan, é um bom filme, não espetacular. Ele busca recontar a famosa Odisseia — que só podia ser dele, Odisseu — em sua volta para casa após dez anos de guerra em Troia: cercos, milhares de mortes, luta entre deuses e o famoso cavalo, que dá origem a dois termos: cavalo de Troia e presente de grego. Para além da falsa polêmica levantada pela extrema-direita, que vê woke em tudo, Helena de Esparta, mais conhecida como Helena de Troia, é representada por Lupita Nyong’o, em sua negritude, que tanto incomoda alguns. Antes que comecem, aviso: a técnica do physique du rôle, que preconiza a escolha de atores com aparência física adequada para determinado papel, além de estar longe de ser unânime, corre sérios riscos de anacronismo; basta ver os muitos e muitos filmes antigos. Além disso, Helena nasceu de um ovo de cisne. Sua beleza única não é restrita a uma etnia, e nem isso tem importância no filme, que apresenta um elenco com várias etnias distintas.
Dito isso, é preciso entender que o filme é uma releitura da Odisseia, e não uma filmagem documental de um texto que é, em si, mítico: um compilado de vários mitos, lendas e folclores antigos e cujo próprio autor pode nunca ter existido, visto que o arquétipo do narrador cego permeia muitas eras e culturas, como vemos retomado por Ariano Suassuna no Romance da Pedra do Reino.
Na verdade, a longínqua atualidade dos textos de Homero, a Ilíada e a Odisseia, se dá justamente pela capacidade que várias eras e culturas têm de formular sua própria leitura hermenêutica sobre eles. Seria, portanto, contraditório que Nolan tentasse ser fiel aos conceitos do ethos original. Para os gregos, Odisseu é um personagem cuja falha trágica é seu orgulho desmedido, a hýbris, e seu arco mítico é justamente o de sua vaidade, que o leva à cegueira, Áte, até que a vingança dos deuses, Nêmesis, o pune, e ele precisa superar essa falha. Se conseguir, é um herói épico; senão, é um herói trágico.
Vamos a mais um corte temporal. Tudo começou com o pomo da discórdia. Na verdade, não, pois a mitologia grega é muito complexa e encadeada… Mas, por conta de um presente de casamento — um pomo de ouro enviado pela deusa da discórdia, Éris, não convidada para o casamento de Peleu com Tétis, pais de Aquiles —, começa um desenrolar de acontecimentos que desembocam na Guerra de Troia, onde Aquiles morre para alcançar a glória eterna nas lembranças de seus feitos. Olha a vaidade aí. Mas também podemos afirmar que tudo começa com a escolha de Helena para se casar. Ela escolhe Menelau, e todos os outros pretendentes que foram preteridos juraram proteger a honra de Helena; entre eles, Odisseu. Para o grego homérico, Helena fora sequestrada ou enfeitiçada para se apaixonar por Páris. Menelau e os povos gregos foram ultrajados, e esse é o motivo da guerra. Nolan traz essa questão para a realidade americana atual: a guerra pelo controle de rotas comerciais. Faz sentido.
O que se sabe da Guerra de Troia vem da arqueologia e da mitologia. Havia uma cidade fortificada onde teria sido Troia, talvez uma cidade hitita. Homero canta essa história cerca de 400 anos depois dos supostos fatos ocorridos. A queda de Troia se relaciona com o fim da Idade do Bronze. Mais um paralelo da história com os mitos. Pesquisas com fósseis de pólen e estalactites contendo isótopos milenares de oxigênio, além de pesquisas geológicas, levam à hipótese, embora não consensual, de que terremotos levaram à erupção de um vulcão no norte da Europa, projetando uma sombra por muitos quilômetros e durante muitos anos, causando desequilíbrio ecológico, levando a décadas de seca, à redução do curso dos rios e à fome, o que provocou correntes migratórias, com invasões, saques e guerras. Essas correntes migratórias ficaram conhecidas como “povos do mar”. No filme, Nolan dá a entender que os próprios gregos seriam esses povos, o que faz sentido, mas ainda não temos provas.
Os últimos séculos da Idade do Bronze se caracterizavam por muita integração econômica, fato comprovado pela arqueologia. Há, inclusive, navios da época que foram resgatados com produtos de sete reinos diferentes. O próprio bronze era uma liga de cobre — cujo nome vem do antigo nome de Chipre, Κύπρος, forma grega de Cyprus — e estanho, que vinha da Ásia central, possivelmente do que seria o atual Afeganistão. Mas, para a tempestade ser perfeita, só faltava o que aconteceu: uma nova base tecnológica, o ferro. Com o advento do ferro, que disseminou o acesso às armas, esses povos do mar conseguiram enfrentar exércitos tradicionais que demoraram a se adaptar à nova realidade da guerra e com o ocaso das rotas comerciais, tiveram dificuldades em continuar obtendo estanho para a produção do bronze. Não devemos esquecer que as crises econômicas daqueles impérios e suas contradições internas os enfraqueceram; ou seja, seu desmonte de dentro para fora abriu uma janela de oportunidades para as invasões. O colapso daquela civilização trouxe consequências como a perda da memória da escrita para vários povos durante séculos, mantida somente pelos fenícios. Ufa!
Apesar do ocaso civilizacional, nem tudo foi decadência nesse período. Além da nova tecnologia, muito daquela época ainda nos impacta. Foi nessa época, após a derrota no Egito, que os povos ligados aos filisteus, também povos do mar, se instalaram no que hoje é a Palestina. As ruínas de grandes cidades permaneceram, como as de Micenas, relatadas por Pausânias. Aquela grandiosidade e riqueza eram tão incríveis para os gregos posteriores que lendas como a do Cíclope traziam respostas, assim como hoje trazem as teorias de “Eram os Deuses Astronautas?”
Voltando ao filme, há uma clara crítica e reflexão sobre a decadência do Ocidente, em especial sobre a dos próprios EUA, punidos por suas próprias falhas trágicas internas, seus crimes e seu distanciamento dos valores que, ao longo de quatro séculos, trouxeram o país à hegemonia mundial. Como naquela época, novas tecnologias superam velhos paradigmas, e as rotas marítimas são disputadas. A recusa de Nolan em utilizar recursos digitais e tecnologias que países asiáticos dominam e utilizam em suas produções; os discursos colocados na boca dos personagens, como os traumas decorrentes dos crimes de guerra cometidos; sua cena emblemática com os Lestrigões vestindo armaduras de ferro, como um sinal do que viria a substituir os gregos; e a viagem final do exílio para o poente, onde o sol se põe: tudo isso é uma leitura atualizada da Odisseia. Se o mundo e o ser humano sobreviverem, provavelmente, nos próximos milênios, haverá outras releituras, pois as estruturas míticas, ou de longa duração, permanecem em nosso inconsciente coletivo, e as eras se sucedem com novas tecnologias e bases materiais.