Europa em Alerta: a violência doméstica contra crianças cresce e exige uma resposta urgente
Renata Bueno· 3 min de leitura

A Europa enfrenta atualmente uma realidade alarmante que desafia governos, instituições e a própria sociedade: o aumento dos casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes. Em um continente que historicamente se orgulha de seus avanços sociais, de seus sistemas de proteção e de seus compromissos com os direitos humanos, os números recentes revelam uma crise silenciosa que ocorre dentro de milhares de lares.
As estatísticas demonstram que a violência contra menores continua crescendo e, em muitos casos, tem como cenário justamente o ambiente que deveria oferecer proteção, acolhimento e segurança. Trata-se de uma realidade que transcende fronteiras e afeta diferentes países europeus, independentemente de seu nível de desenvolvimento econômico.
Em Portugal, por exemplo, os dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) dos últimos cinco anos revelam um quadro preocupante. A violência doméstica representa 61,7% dos casos de violência identificados contra crianças e jovens. Mais preocupante ainda é o fato de que, entre 2022 e 2025, os agressores eram predominantemente do sexo masculino (61,9%), sendo que em 39,6% das situações o agressor era o próprio pai ou a própria mãe da vítima.
Esses números nos obrigam a refletir sobre uma questão fundamental: como proteger crianças quando o perigo está dentro de casa?
A resposta não é simples. A violência doméstica contra menores é um fenômeno complexo, frequentemente associado a fatores como dificuldades econômicas, problemas de saúde mental, dependência química, ciclos intergeracionais de violência e fragilidade das redes de apoio familiar. No entanto, compreender as causas não pode significar tolerar ou relativizar suas consequências.
Os impactos para as vítimas são profundos e duradouros. Crianças expostas à violência apresentam maior risco de desenvolver transtornos emocionais, dificuldades de aprendizagem, problemas de relacionamento e até mesmo reproduzir comportamentos violentos na vida adulta. Cada caso não representa apenas uma estatística, mas uma infância interrompida e um futuro comprometido.
Como ex-parlamentar italiana e advogada internacional, acompanho com preocupação o enfraquecimento de estruturas familiares e comunitárias que historicamente desempenhavam papel fundamental na proteção dos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, é indispensável reconhecer que os mecanismos públicos de prevenção e resposta ainda não conseguem alcançar todas as vítimas.
A Europa precisa fortalecer políticas de proteção à infância, ampliar os canais de denúncia, investir em programas de acompanhamento familiar e garantir que escolas, profissionais da saúde e assistentes sociais estejam preparados para identificar sinais precoces de violência. A prevenção deve ser prioridade, não apenas a reação após a ocorrência dos abusos.
Também é necessário enfrentar um desafio muitas vezes invisível: o silêncio. Crianças raramente denunciam espontaneamente situações de violência. O medo, a dependência emocional e a falta de compreensão sobre seus próprios direitos fazem com que muitas permaneçam anos sofrendo agressões sem qualquer intervenção externa.
Não podemos aceitar que os lares se transformem em ambientes de risco para aqueles que deveriam ser mais protegidos. A defesa da infância não pode ser uma pauta secundária nem restrita a campanhas ocasionais. Trata-se de uma responsabilidade coletiva que envolve governos, instituições, comunidades e famílias.
A verdadeira medida da civilização de uma sociedade não está apenas em seus indicadores econômicos ou tecnológicos, mas na forma como ela protege suas crianças. E, diante dos números que hoje emergem em diversos países europeus, é evidente que ainda temos muito trabalho pela frente.
A Europa precisa agir com urgência. Porque cada criança protegida representa não apenas uma vida preservada, mas também a esperança de um futuro mais seguro, mais justo e mais humano.