Isolamento político de Lula pode favorecer oposição no segundo turno

O presidente Lula continua favorito, mas seu desempenho está estagnado. A pesquisa Meio/Ideia mostra como esse equilíbrio é mais frágil do que parece
Divulgada nessa quarta-feira, a pesquisa Meio/Ideia de julho permite uma leitura incômoda para o Palácio do Planalto: por ora, o risco para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o surgimento de um adversário competitivo carismático ou capaz de atrair o centro político e viabilizar a terceira via no primeiro turno, mas a persistência do seu próprio isolamento político.
O problema central do presidente não é apenas a existência de um campo oposicionista numeroso e ideologicamente alinhado contra ele; é a combinação entre um teto eleitoral aparentemente consolidado e o não surgimento de uma candidatura com a qual possa se alinhar no segundo turno.
O desafio de Lula é a incapacidade de desidratar a direita fragmentada, antes que ela se recomponha no segundo turno. O pior dos mundos, portanto, não é enfrentar um “supercandidato” conservador. É continuar preso a uma espécie de soberbo isolamento, confiando demais na força do próprio recall eleitoral e menos na necessidade de reorganizar uma maioria política e social mais ampla.
Os números da pesquisa mostram isso. Na espontânea, Lula aparece com 32,8%, contra 20,3% de Flávio Bolsonaro, mas o dado mais eloquente é o tamanho do eleitorado ainda desorganizado: 33,1% dizem não saber em quem votar, e 8,5% apontam branco, nulo ou ninguém. Ou seja, mesmo liderando, Lula não ocupa o espaço inteiro do jogo; ele mantém um núcleo robusto, mas ainda longe de qualquer posição confortável.
Na estimulada de primeiro turno com Flávio Bolsonaro, o presidente tem 40,4%, contra 32% do senador, enquanto Ronaldo Caiado marca 4%, Romeu Zema 2,5%, Aécio Neves e Renan Santos 2% cada, Augusto Cury 1,5% e os demais percentuais residuais. O dado decisivo está no fato de que, somadas, as candidaturas oposicionistas ultrapassam o campo bolsonarista puro e demonstram a existência de um eleitorado anti-Lula maior do que o voto individual de qualquer nome da direita.
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O analista político mineiro Roberto Reis, especialista em cenários eleitorais, destaca o padrão dos demais levantamentos nacionais do período. No AtlasIntel/Bloomberg do fim de junho, Lula tinha 46,3% no cenário de primeiro turno, enquanto a soma dos adversários chegava a 50,3%; no Datafolha, 41% a 48%; no BTG/Nexus, 42% a 49%; no Quaest, 39% a 42%; no Real Time Big Data, 38% a 53%. Não é mais um detalhe estatístico, mas uma tendência que se consolida: a oposição, desunida, não consegue transformar esse excedente em candidatura hegemônica, porém o lulismo já não consegue monopolizar o eleitorado “anti-Bolsonaro” como fez em 2022.
Por isso, o presidente Lula continua favorito, mas seu desempenho está estagnado. A pesquisa Meio/Ideia mostra como esse equilíbrio é mais frágil do que parece. No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula vence por 45% a 40%, com 10,5% de branco/nulo e 4,5% de indecisos. É vantagem real, mas curta para quem ainda dispõe da máquina, do Nordeste e da lembrança de ter derrotado o bolsonarismo clássico.
Sem uma onda
O mais importante é que esse placar circunscreve a própria expectativa de poder de Lula, o que complica a articulação dos palanques regionais. Na série histórica do instituto, Lula oscilou de 46,2% em janeiro para 45% agora, enquanto Flávio saiu de 36% para 40%, sinal de que a disputa se estreitou e de que o senador, mesmo com todas as limitações, mantém capacidade de retenção do eleitorado de direita.
Entre os homens, Flávio vence Lula por 46,3% a 39,2%; entre os jovens de 16 a 24 anos, por 45,7% a 33,3%; no Norte, por 49,2% a 33,6%; no Sul, por 54,1% a 16,8%; entre evangélicos, por 61,1% a 18,7%; e entre quem ganha mais de cinco salários-mínimos, por 47,9% a 37,6%. Lula compensa isso com ampla vantagem entre mulheres — 50,4% a 34,2% —, no Nordeste — 62,7% a 24,7% —, entre católicos — 55,2% a 31,9% — e sobretudo na base de renda até um salário-mínimo, onde lidera por 58,8% a 28,4%.
Esse mapa confirma que Lula segue forte onde o lulismo historicamente sempre foi forte: mulheres, baixa renda, Nordeste e segmentos religiosos não evangélicos. Mas também que esse capital não basta, por si só, para produzir uma onda vitoriosa. Há um teto visível. Lula está estacionado. E a eleição de 2026, como sugerem as pesquisas, pode deixar de ser um plebiscito sobre o bolsonarismo e se transformar num referendo sobre a capacidade — ou incapacidade — de o presidente tecer uma ampla coalizão social, que atraia as alianças políticas locais.
É um cenário esquisito. A direita brasileira chega à convenção eleitoral fragmentada e capenga. Flávio tem recall e máquina digital, mas enfrenta resistências internas e uma campanha errática. Caiado tem experiência, mas dificuldade de capilaridade. Zema perdeu centralidade. Renan Santos tem energia, mas pouco tempo de TV e pouca estrutura.
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Michelle Bolsonaro aparece como um ativo poderoso, mas não consensual. No primeiro turno, em cenário com seu nome, Lula marca 40,4% e ela 29,4%; no segundo turno, o presidente venceria por 45% a 36%. O maior equívoco para Lula será interpretar a fragmentação adversária como irreversível. Se o Planalto concluir que a direita, por estar dividida, está condenada à derrota, cometerá talvez o erro mais grave da campanha. A oposição ainda pode se reorganizar no segundo turno.
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