O nosso iberismo numa encruzilhada da história que pauta Lula e Flávio

Sim, os resultados das nossa democracia são insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas não autorizam tratar a redemocratização como um grande fracasso
A eleição presidencial brasileira é a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026, avalia Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), laureado com o Nobel de Economia. Em entrevista à BBC News Brasil, o economista compara uma eventual volta da família Bolsonaro ao poder à decisão dos norte-americanos de reconduzir Donald Trump à Casa Branca. Seu alerta ultrapassa a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, hoje favorito. Segundo ele, está em jogo o lugar do Brasil na crise das democracias e na reorganização do poder mundial.
Leia também: Flávio tem 52% dos votos válidos e Lula 48% na pesquisa Real Time Big Data
Mais uma vez, o país chega a uma encruzilhada histórica, na qual suas contradições internas se encontram com as grandes transformações internacionais. Desde a expansão marítima portuguesa, participamos das conexões entre Ocidente e Oriente. A chegada de Cabral ocorreu numa expedição destinada à Índia. Mais tarde, sobretudo a partir da segunda metade do século XVII, Salvador se consolidou como escala da Carreira da Índia, integrando circuitos que ligavam Europa, África, América e Ásia. Antes de existir como nação, o Brasil já participava de uma economia mundial
Essa inserção deixou marcas. A colonização nos vinculou à circulação internacional de mercadorias, pessoas e conhecimentos, mas organizou a sociedade pela escravidão, pelo monopólio e pela concentração da propriedade. A conexão com o mundo conviveu com o fechamento das oportunidades dentro de casa. A riqueza atravessava os oceanos, a cidadania encontrava barreiras na estrutura social.
É nesse sentido que o velho iberismo continua sendo uma chave para compreensão do presente. Não como destino cultural inevitável, embora sua presença seja uma vertente de nossa identidade nacional, nem como explicação para todos os nossos males, como fazem aqueles que veem no povo o grande problema. Mas como uma herança de centralização do poder, hierarquias sociais e dependência da sociedade em relação ao Estado.
Nossa modernização frequentemente avançou por decisões tomadas de cima, mediante acordos entre elites que incorporavam demandas populares sem distribuir o poder na mesma proporção e, muito menos, o conhecimento e a renda. Nosso populismo é parte desse processo. Como destaca Alberto Aggio, em seu livro Um Lugar no Mundo (Fundação Astrojildo Pereira), não cabe reduzi-lo a simples demagogias. Sua emergência correspondeu à crise da ordem liberal oligárquica e à tentativa de construir sociedades industriais com protagonismo estatal. A nossa revolução burguesa foi passiva, incorporou trabalhadores pela legislação social, mas submeteu sua organização à tutela do Estado. Ampliou direitos e restringiu autonomia.
A Constituição de 1988 procurou superar essa cidadania tutelada ao combinar direitos sociais, liberdades individuais e participação democrática. Sim, seus resultados são insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas não autorizam tratar a redemocratização como um grande fracasso. O impasse está na dificuldade de converter direitos reconhecidos em serviços de qualidade, oportunidades e segurança, enquanto grupos organizados, velhas oligarquias e corporações do poder instalado capturam recursos e instituições.
Entre dois mundos
É aqui que o economista norte-americano volta a essa história. Em seu novo livro, What Happened to Liberal Democracy?, Acemoglu relaciona a vitalidade da democracia liberal à prosperidade compartilhada, ao governo democrático e à liberdade de produzir conhecimento. Sua reconstrução exige, pois recuperar as condições sociais que tornam a liberdade efetiva para a maioria.
Resguardadas as mudanças na estrutura e na composição das classes sociais no Brasil, o velho dilema da “classe em si” ou “classe para si” pode ser traduzido pela seguinte pergunta: como assegurar que o trabalhador seja um cidadão autônomo, com voz e perspectivas de ascensão? Essa é a tarefa inconclusa para social-democratas e liberais, no poder ou fora dele. As razões também são uma boa discussão para depois das eleições.
Nossa relação com o exterior tem tem a ver com isso. A tradição diplomática brasileira construiu instrumentos para ampliar a margem de decisão nacional diante das potências. Em diferentes governos e regimes, houve esforços para negociar vantagens, diversificar parceiros e evitar compromissos que subordinassem o desenvolvimento brasileiro às prioridades alheias. Essa tradição produziu um patrimônio de Estado, que está em risco nessas eleições.
Leia mais: Itamaraty reage a Milei e o acusa de tentar interferir nas eleições brasileiras
Agora, a rivalidade entre Estados Unidos e China recoloca o Brasil entre dois grandes centros de poder. Entretanto, é um erro transformar essa circunstância numa escolha simplista. A aproximação com Washington não constitui, por si, uma garantia democrática, assim como o comércio com Pequim não determina nosso regime político. O critério deve ser o interesse nacional, submetido ao debate público e aos limites constitucionais.
Relações com os EUA, a China, a União Europeia e o Brics precisam ser avaliadas por seus efeitos sobre emprego, tecnologia, produtividade e capacidade de decisão. Nossa soberania perderá substância se depender excessivamente de qualquer parceiro ou com uma corrente política estrangeira como referência de autoridade para lideranças nacionais. Isso também coloca em xeque nossa democracia representativa.
Vale a pena ler de novo:
O velho populismo e o novo iliberalismo na disputa entre Lula e Flávio
Favoritismo de Flávio obriga Lula a adotar uma estratégia de resistência
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo