Quando até o futebol vira palco para Trump

“Contra a Argentina, a gente torce até pelo juiz”
Essa frase bem poderia ser do saudoso João Saldanha, ou de seu antigo patrão, também grande frasista, Nelson Gonçalves. Parece que Trump se imbuiu da missão de trazer para si a unidade internacional. Sejamos justos: ele tem o dom de unir o mundo contra si. Foi na Venezuela, uma ditadura decadente e moribunda, com sua ação ilegal de sequestro de um ditador já nos acréscimos; foi no Irã, com uma teocracia rejeitada por todo o mundo democrático, em um ataque traiçoeiro, em meio a negociações de paz, mirando autoridades monitoradas por serviços de inteligência enquanto negociavam. Conseguiu transformar o algoz em mártir; os opressores dos cabelos femininos aos ventos, nos defensores dos povos oprimidos pelo imperialismo americano, nos defensores das vítimas do genocídio sionista.
Não satisfeito, na busca frenética por holofotes, Trump se gabou de ter pressionado a FIFA pela suspensão de um cartão vermelho recebido pelo principal atacante da seleção dos EUA no jogo contra a Bósnia-Herzegovina. Incumbiu a federação americana de futebol de levantar um dossiê contra o árbitro brasileiro — torçamos para que ele não caia na malha da Lei Magnitsky. Sua declaração orgulhosa de que mostrou quem manda foi apoiada pelo secretário de Estado, responsável pela política externa dos EUA, Marco Rubio, e depois festejada pelo senador Ted Cruz. Esse foi o ápice de suas interferências. O governo americano não permitiu a entrada daquele que é considerado o melhor juiz do continente africano, pressionou e desgastou a delegação iraniana, agrediu o técnico do Egito, expulsou torcedores e por aí vai. De dar inveja a Mussolini em 1934, que tinha sido o caso mais grave de interferência de um governo na Copa, com a conquista da Azzurra, no que era “vencer ou morrer”.
O futebol tem disso: é o esporte mais popular e que mais emociona no mundo, com mais de 5 bilhões de torcedores. O futebol já promoveu cessar-fogo, como também já levou à guerra. Nos pés daqueles onze, o coração de milhões, quando um país inteiro se une por 90 ou 120 minutos, mais ainda na agonia dos pênaltis. Os EUA nunca entenderam o futebol; era um esporte feminino, mas, com a migração latina, despertaram para esse esporte. Pelo menos na seleção americana, ser imigrante não é um problema. Essa será a Copa com maior faturamento da FIFA, mais de 11 bi de dólares, e Trump não se meteu nisso à toa. Ele tem sensibilidade para entender o eleitorado dele, muitos de origem latina, cada vez mais apaixonados por esse esporte que é a paixão do mundo: o futebol. Quem sabe os americanos comecem a chamá-lo pelo nome certo, em vez de soccer.
É interessante vermos liberais, defensores do livre mercado, defendendo tarifas, proteção de mercado, o Estado na condução da economia e, agora, quem diria, em uma Copa do Mundo. Para o atleta, restou o estigma que lhe é injusto; para o árbitro brasileiro, que, na verdade, aplicou o que o VAR recomendou, a derrota vexatória de 4 a 1 para uma Bélgica motivada pela virada de mesa, carregando, quem diria, logo ela, o apoio de todo um mundo que não suporta mais Trump e sua arrogância, ameaçando Cuba, Groenlândia e até, quem diria, o Brasil, o amigo de todo mundo, a seleção que emociona torcedores de todos os países. Enfim, a Bélgica lavou a alma de todos nós, e os americanos, pelo futebol, estão percebendo que os outros não torcem mais por eles.
Agora podemos voltar a torcer contra a Argentina, tanto pela rivalidade quanto pela admiração de sua qualidade, raça, vontade de vencer, negativa de se entregar e por Messi. Nossa geração de jogadores BETs não nos emociona mais. Talvez a falta que percebemos neles de gana, de fome de vencer ou de emoção nos desanime sem que percebamos. Desde que trocamos o soco com firmeza no ar por dancinhas na comemoração de gols, aquela nossa paixão ainda é amor, mas com menos ardor.
Trump vai ficar marcado pela derrota americana, como talvez fique pela, até agora, derrota no Irã, pela derrota para a China na guerra tarifária e, no futuro, quem sabe, quando as paixões políticas e futebolísticas se acalmarem, pelo ridículo de sua atitude em uma Copa, assim como Médici é lembrado por tentar escalar um jogador em 70 e ouvir de João Sem Medo, Saldanha: “Eu não escalo ministros, e o presidente não escala jogadores.” Na época, Médici venceu a queda de braço, mas, na história, passou como ridículo, como foi.
O futebol vai continuar, os campeonatos se sucederão, os heróis virão e entrarão para a história do futebol, como Leônidas da Silva, Puskás, Pelé, Didi, Maradona, Cruyff, Zidane, Zico, Higuita, o Aranha Negra, Kempes, Ghiggia, Boniek, Garrincha, Eto’o, Messi e Mbappé. Mas Trump, talvez, se pudesse, lá no futuro, nesse quesito, gostaria de ser esquecido.