Selma, Noraci, Adalberon e Calheiros, presentes!

Um acontecimento trágico, sem precedentes na história política de Alagoas, marcou para sempre os alagoanos na década de 80.
Neste Sete de Setembro marca 40 anos de saudade da deputada Selma Bandeira, data em que milhares de alagoanos choraram sua precoce partida, vítima de um brutal acidente na Ladeira de Satuba.
Amada e querida por suas bandeiras de luta, desfrutava de uma admiração gigantesca de homens e mulheres que viam nela a expressão da esperança, especialmente, para as minorias: trabalhadores do campo e da cidade, mulheres, negros, povos originários e a comunidade LGBT.
Os alto-falantes do Trapichão, naquele dia, anunciaram o fatídico acontecimento que, segundo torcedores, emudeceu o estádio e paralisou a partida daquele fim de tarde de um domingo ensolarado, em que se praticava o esporte bretão que consagrou Leônidas da Silva.
O acidente ceifou a vida de mais três pessoas: Noraci Pedrosa, enfermeira, Calheiros, o motorista, e Adalberon, assessor parlamentar, que viajavam para participar de um comício em Viçosa, num Corcel II da Ford, equivalente a um HB20 dos dias de hoje.
Um caminhão, com carga máxima de madeira, atravessou a pista na contramão porque o motorista dormiu ao volante após consumir bebida alcoólica, e o impacto matou instantaneamente todos os quatro ocupantes.
O sepultamento parou a ainda quase pacata Maceió, que mal chegava a 430 mil habitantes, com um cortejo gigantesco de pelo menos 10 km, como registrou a Gazeta de Alagoas, repleto de gente do povo a pé, carros, bicicletas e carroças.
A Formação
Sertaneja destemida, nunca estudou em outro lugar que não fosse escola pública e logrou conquistar, com as melhores notas, a formação como médica, onde se dedicou à pediatria. Fez pós-graduação em Saúde Pública — equivalente, à época, ao mestrado de hoje —, podendo atuar como médica sanitarista, e, também, foi prifessora na Faculdade de Medicina da Ufal.
A Clandestina
Selma foi perseguida de maneira voraz, apenas por suas convicções políticas, pela ditadura militar numa caçada sem descanso pelo mais imundo lixo que uma mãe foi capaz de parir: o delegado Fleury.
Quando caiu — linguagem da época —, ela colecionava várias carteiras de identidade, com nomes variados como Helena, Maria, Beatriz e tantos outros, além de vários lugares onde trabalhou como médica, no Nordeste e em São Paulo.
Havia um cinturão de solidariedade de muita gente de coragem que usava de todos os meios para proteger os perseguidos pela ditadura. Entre esses, Ede Fon acolheu por muito tempo Selma em sua morada no Rio de Janeiro.
Os militares e os paramilitares, com todos os seus aparatos, caguetas e "xis-noves", demoraram vários anos para prender aquela mulher pequena (1,62 m), de cabelos pretos, magra, que mostrava um sorriso capaz de abrir o coração de quem estivesse à sua frente, fosse quem fosse.
Seus irmãos Lauro, Maria das Graças, e seu cunhado Valmir foram igualmente torturados de forma implacável para que revelassem o paradeiro de Selma. Resistiram bravamente e nada disseram.
Entretanto, num vacilo de um companheiro, acabou presa, torturada e encaminhada para o Presídio Feminino Bom Pastor, de onde saiu graças à Lei da Anistia, que libertou comunistas, socialistas, crentes na democracia e na pluralidade, como também libertários dos mais variados matizes do pensamento. Nenhum golpista.
Política
Assim que retornou a Alagoas, foi acolhida por um grande democrata: Guilherme Palmeira, governador, e seu fiel escudeiro, José Bernardes, secretário da Saúde, que ofereceram trabalho, salário e dignidade para ela e para tantos outros companheiros como ela.
Filiou-se ao MDB, depois PMDB, e hoje MDB, que naquele tempo acolheu a esquerda de todas as cores, como os militantes do MR-8, PCB, PCdoB, PCR (partido onde atuava na clandestinidade), entre outros, até que esses partidos ganhassem cara própria.
Foi eleita deputada estadual gastando, em valores corrigidos, aproximadamente R$ 15.000,00, dinheiro que não paga, hoje, quarenta bandeiras tremulando na praia.
Assumiu a cadeira de deputada estadual e dedicou-se a fazer um mandato popular e combativo onde, inclusive, comprou várias brigas. Uma delas contra a "Gangue Sádica", formada por rapazes e homens de famílias ricas que tinham o hábito de seviciar e torturar mulheres jovens, na sua grande maioria trabalhadoras em casas de família, em áreas abandonadas da orla marítima.
Alguns desses canalhas ainda seguem vivos e impunes e nome "Gang Sádica" veio de uma espécie de assinatura desses animais que depois de estuprar, retiravam os bicos dos seios das mulheres com alicate.
A Vida
Nascida em Delmiro Gouveia, filha de um mecânico da Chesf, seu Lauro, e de dona Alexandrina, recentemente falecida aos 107 anos, morou no Farol, numa casa vizinha às caixas-d'água que hoje pertencem ao Clube de Engenharia de Alagoas e, a seguir, mudaram-se para o Stella Maris, um grande areião entrecortado pelo uma área vaziz que se transformou no belo Corredor Vera Arruda.
Selma Bandeira apresenta uma história pessoal rica, inspiradora e perseverante que reflete todos os desafios de uma mulher à frente do seu tempo, vivendo num Brasil mergulhado no mais sangrento e nefasto período da vida nacional: o estado de exceção com os milicos no poder matando seus irmãos brasileiros.
Selma foi companheira de Manoel Lisboa - ícone da luta contra a ditadura - assassinado covardemente, teve outros envolvimentos até encontrar um amor fulminante, Luiz Dantas, durante uma reunião política, em São Paulo, onde ele foi designado, pelo então candidato a governador Franco Montoro, para ajudar no que pudesse seu amigo querido José Costa, então candidato a governador pelo PMDB, como Montoro.
No encontro havia outros militantes e candidatos, tempos românticos de uma política de convicções e de muitos, muitos ideais que há bastante tempo desapareceram.
Após a reunião, confidenciou a uma amiga que o galego grande mexeu fundo com ela e entendeu que foi correspondida prontamente: Luiz não tirava o olho dela e ela não tirava o olho dele.
Casaram-se em 1983 e ela passou a assinar Selma Bandeira Mendes Dantas Vale, mas dizia que, na verdade, tinha se casado em outubro de 1982, num jantar romântico no restaurante Bem (extinto), com lua cheia e o balanço das ondas como trilha sonora.
Sem filhos, o casal iniciou um processo para adoção que acabou não acontendo em razão da sua morte.