Sobrenatural de Almeida, campanha na palma da mão e voto na ponta do dedo

A rejeição pode motivar o voto útil, mas isso não assegura uma decisão ainda hoje, quando “memes” e “deepfakes” chegarão ao auge na disputa pela Presidência
O primeiro turno das eleições chega ao momento decisivo, hoje, com campanhas de “boca de urna” proibidas nas ruas, mas com disputas intensas pela Presidência, pelos governos estaduais e pelo Senado por meio das redes sociais. Parte da mobilização migrou das praças para os celulares, ou seja, para a palma das mãos, uma tendência que já vinha se demonstrando desde as eleições de 2018. A novidade é a intensa utilização da inteligência artificial, seja nas campanhas oficiais, seja na produção de memes e fake news nas redes sociais.
O celular virou palanque permanente. Compartilhar ataques, defender candidatos e convencer familiares são formas de participação. A escala também aparece nas irregularidades: o projeto VigIA, da agência Lupa, identificou pelo menos 554 vídeos e imagens classificados como deepfakes (a produção de vídeos, áudios e imagens manipulados de pessoas reais) durante a campanha do primeiro turno.
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A disputa eleitoral encontra o campo mais decisivo no Sudeste. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somam 63,3 milhões de eleitores, equivalentes a 40,1% dos aptos a votar no país. No Datafolha de ontem, Lula tinha 42% na região e Flávio Bolsonaro, 40%. Na Quaest de 28 de setembro, eram 33% e 35%, respectivamente. As diferenças entre institutos recomendam cautela, mas ambos mostram competição apertada e redução da distância entre os candidatos.
Nos levantamentos estaduais do Datafolha divulgados na sexta-feira, Flávio tinha 39% em São Paulo, contra 38% de Lula; em Minas, o presidente marcava 42%, ante 36% do adversário; no Rio, o senador liderava com 45%, contra 38%. O avanço de Lula no Sudeste pode reduzir a vantagem bolsonarista na região, mas não elimina a força de Flávio no seu estado de origem. Tampouco a liderança de um candidato a governador assegura transferência integral ao aliado presidencial.
Há espaço para o imponderável. Na pesquisa Quaest, independentes representavam de 24% a 36% do eleitorado estadual, chegando a 36% no Rio e 35% no Amazonas. Em São Paulo, 20% admitiam mudar de voto; em Minas, 19%. Isso indica que um público menos subordinado às identidades partidárias decidirá o resultado das eleições. É sobre ele que mensagens de medo, denúncias e apelos ao voto útil exercem maior pressão.
Nos governos estaduais, a disputa permanece aberta em importantes colégios. Na Bahia, a Quaest de 24 de setembro mostrou ACM Neto com 42% e Jerônimo Rodrigues com 40%. No Ceará, o Datafolha de 3 de outubro apontou Ciro Gomes com 47% dos votos válidos e Elmano de Freitas com 50%. Em Pernambuco, Raquel Lyra e João Campos tinham, respectivamente, 49% e 48% dos votos válidos no Datafolha de 3 de outubro; na Quaest do mesmo dia, eram 52% e 47%. A concentração em dois nomes permite que uma disputa apertada termine no primeiro turno, porque somente os votos válidos são computados.
Voto útil
Há francos favoritos. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas alcançou 60% dos votos válidos no Datafolha de 3 de outubro, contra 35% de Fernando Haddad; na Quaest do mesmo dia, eram 60% e 36%. No Piauí, Rafael Fonteles tinha 55% das intenções totais, ante 25% de Joel Rodrigues, no levantamento divulgado em 17 de setembro. A vitória exige mais da metade dos válidos. Na Quaest no Rio de Janeiro, considerando votos válidos, Eduardo Paes tem 49 %; e Douglas Ruas, 40 %. Pode dar primeiro turno.
A disputa do Senado, em razão da crise de confiança no Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou outra dimensão. Serão renovadas 54 das 81 cadeiras. O que está em jogo não é apenas representar cada estado, em pé de igualdade com os demais, está se decidindo também a futura composição do STF. O controle de duas vagas envolve governabilidade, indicações ao Supremo e processos de impeachment de seus ministros. As disputas estão acirradas. No Datafolha de 3 de outubro, por exemplo, São Paulo tinha Guilherme Derrite e André do Prado com 22% cada, Marina Silva com 21% e Simone Tebet com 20% dos votos válidos. No Rio, Benedita da Silva registrava 26%, Carlos Portinho, 19%, e Carlos Jordy, 18% dos votos válidos. Em Minas, Marília Campos tinha 21%, Carlos Viana, 19%, Domingos Sávio, 17%, e Aécio Neves, 13% dos votos válidos.
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Nas redes, Banco Master, INSS, conflitos religiosos, acusações de interferência estrangeira e a proibição das bets alimentam ataques sucessivos. Mas as prioridades dos eleitores têm raízes concretas. Na Nexus, a economia motiva 40% dos eleitores do Sul, 37% do Norte/Centro-Oeste e 36% do Sudeste. No Nordeste, a saúde lidera com 35%, seguida da rejeição a um candidato, com 29%, da economia, com 28%, e da educação, com 27%. Corrupção pesa para 39% no Sul e 32% no Sudeste. As polêmicas ganham força quando encontram essas preocupações.
Na Presidência, a tendência é um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. A Nexus de 28 de setembro mostrou Lula com 42% dos votos totais, Flávio com 37% e os demais somando 16%; 87% dos que escolheram candidato disseram não pretender mudar. A atenção capturada nas telas, porém, precisa se transformar em voto na urna. Ou seja, o dedo “maior de todos” é que decide a eleição na urna eletrônica. É verdade que o voto útil pode antecipar escolhas motivadas pela rejeição, mas sua existência não assegura uma decisão ainda hoje, quando a mobilização digital chegará ao auge. A não ser que o Sobrenatural de Almeida, como diria Nelson Rodrigues, entre em campo. Assim é a nossa democracia.
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