Laura Sabino: "Internet é espaço político e de comunicação gigantesco"
05/07/25
By:
Redação
Influenciadora de esquerda afirma que mobilização via redes sociais é visível na organização de grandes protestos sociais recentes

Em uma palestra estratégica no 5º Encontro Nacional de Jovens Lideranças, a influenciadora digital de esquerda Laura Sabino destacou o papel transformador das mídias sociais na ação política contemporânea.
“A internet é um espaço político e de comunicação gigantesco, com interesses dos grupos políticos, que são donos e formulam os algoritmos, mas também com capacidade de emulação da realidade”, disse, para jovens de 24 unidades da Federação. Ela destacou que o espaço digital é uma realidade que exige dos novos líderes a compreensão profunda de suas dinâmicas para atuar de forma eficaz e engajar a juventude.
O evento é realizado pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), com o apoio do Cidadania 23. O evento, que teve início na quinta-feira (3/7), seguirá até domingo, no Hotel Fazenda Divino Paraíso, no Gama, a 40 km de Brasília.
“Choque cultural”
Laura ressaltou a vocação histórica dos jovens brasileiros para a transformação social. “A juventude deve ser quem coloca a mão na massa. O próprio partido de vocês [Cidadania] veio do antigo PCB, que era de vanguarda e se colocava como transformação”, pontuou. Segundo ela, a emergência da internet como veículo de comunicação de massa transformou radicalmente o cenário político. “A internet é um veículo de comunicação relativamente novo. Em todo período em que há um veículo de comunicação novo e surdido, temos um desgaste com o veículo anterior e um choque cultural”, analisou. Esse choque cultural, que historicamente acompanhou a popularização de jornais e televisão, agora se manifesta na relação com as redes, que se tornaram um campo fértil para a disputa de narrativas e a mobilização.
O grande diferencial das plataformas digitais, na avaliação da influenciadora, reside em sua capacidade de segmentação e na coleta de dados psicológicos. Laura explicou que o principal poder da internet é a sua capacidade de segmentação. “Nunca antes na história da humanidade a gente conseguiu falar tão diretamente com a sociedade”. Essa segmentação, impulsionada por algoritmos que traçam perfis psicológicos detalhados – estudos indicam mais de 5 mil características em relação à psiquê, conforme a influencer – permite direcionar mensagens de forma inédita, moldando percepções e comportamentos.
“Proximidade”
Apesar da percepção popular de neutralidade, as redes sociais são ambientes com interesses definidos. “Na internet você não tem esse conteúdo escoado”, afirmou Sabino, referindo-se à fluidez com que o marketing e as mensagens políticas se integram ao conteúdo diário, disfarçando intenções comerciais ou ideológicas. Ela utilizou o exemplo de influenciadores digitais que, ao exibir uma falsa simplicidade, como o youtuber Whindersson Nunes gravando vídeos em seu quarto, constroem uma “ideia de conexão, de proximidade,” que os torna extremamente eficazes na persuasão e no engajamento de seu público.
Essa proximidade cultivada online tem um efeito poderoso: a criação de pertencimento. “A internet conseguiu capturar essa ideia de pertencimento e organizar a equidade. Em um mundo cada vez mais fragmentado, onde as pessoas buscam sentir-se parte de algo, as redes sociais oferecem a ilusão de comunidade e integração, um espaço onde “as pessoas se sentem pertencentes a alguma coisa”, disse ela, citando o criador do site BuzzFeed, Jonah Peretti, sobre o desejo humano de pertencimento.
A influência das redes sociais é visível na organização de grandes movimentos sociais recentes. Laura destacou que manifestações no Brasil, incluindo as de 2013, o “Fora Dilma” e o “tsunami da educação” (ocupações de escolas), tiveram em comum o fato de serem marcadas a partir de grupos de internet. Para a influenciadora, essa capacidade de organizar pessoas e comunidades em grupos demonstra que não existe mais separação nítida entre realidade e internet. “A internet é parte da realidade”, asseverou.
Soluções rápidas
Contudo, a juventude atual enfrenta desafios complexos, que exigem uma abordagem política diferenciada. “As pessoas não estão conseguindo acreditar mais que as instituições e a política são o veículo que vai transformar a vida delas”, observou, descrevendo um cenário de “melancolia” entre os jovens. Essa desilusão, aliada a crises de saúde mental e a uma geração “financeiramente inviável”, cria uma busca desesperada por soluções rápidas, tornando-os vulneráveis a discursos simplistas e promessas fáceis.
Diante desse contexto, o papel das organizações políticas é crucial. “Qual é o papel da gente que defende algo? A organização política dos jovens como uma alternativa a essa frente de problemas. Se comunicar com esses jovens e mostrar alternativas”, defendeu. Para ela, as opões devem surgir de uma compreensão profunda da realidade da juventude, criando “comunidades” onde “as pessoas estão a falar da experiência delas” e encontrar soluções, sentindo que “não estão sozinhas no mundo”.
A estratégia de comunicação política deve se adaptar a essa nova realidade. “O nome disso é estratégia política”, afirmou. De acordo com ela, não se trata apenas de produzir conteúdo “bom” ou “genérico”. A comunicação eficaz nas redes exige diferenciação e capacidade de gerar identificação. “O que vai fazer seu conteúdo ou a fala atingir as pessoas é a diferenciação”, explicou, ressaltando a importância de “entender a lógica das redes sociais”, assim como o marketing aprendeu a dominar a televisão, para mobilizar sentimentos e engajar a juventude em torno de propostas que realmente ressoem com suas vivências e anseios.
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