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O ex-presidente Bolsonaro em seu labirinto

28/06/23

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Luiz Carlos Azedo

As investigações sobre o 8 de janeiro estão complicando a situação do ex-presidente. Mesmo que novas provas não sejam incorporadas ao processo pelo TSE, sua inelegibilidade é dada como certa

Com perdão para a memória de Simón Bolívar, o Libertador, e parafraseando Gabriel García Márquez, a história do ex-presidente Jair Bolsonaro começará a ser contada a partir de seu julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deve condená-lo à inelegibilidade até 2030. O ex-capitão, como o general de romance histórico da literatura latino-americana, construiu um labirinto do qual não consegue sair. Como o personagem fictício, cuja trajetória é fiel aos fatos históricos, Bolsonaro ingressa agora numa fase na qual toda glória se foi. Precisará de muita resiliência para enfrentar mais de uma dúzia de processos, sem a prostração e a angústia do mitológico caudilho de Gabo no final de sua vida.


Spoiler desse clássico da literatura universal: García Márquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura, ao contar a história de Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco, O Libertador, fala dos percalços da vida, do sofrimento e de sua sina cruel, que a realidade traz à tona sempre que pode, ao final da vida do caudilho.


O general em seu labirinto (Record), de 1989, começa de trás pra frente, nos últimos dias do caudilho venezuelano, durante sua derradeira viagem através do Rio Magdalena, quando rememora paixões, batalhas, derrotas e vitórias. Tecido pelas dores do declínio, seu labirinto é uma mente ambiciosa, muito inteligente e sagaz, que sonhou fazê-lo o chefe político e militar perpétuo de uma única grande nação, do México à Terra do Fogo, depois de conquistar a Venezuela, a Colômbia, o Equador e a Bolívia. O seu ocaso, porém, é cruel.


Voltemos a Bolsonaro. O ex-presidente da República é grosseiro e vulgar, mas não é burro. Inicialmente, não acreditava numa condenação, que agora é dada como certa por seus aliados e até por ele próprio. Nos últimos dias, já com a inelegibilidade dada como favas contadas, saiu da letargia e resolver mobilizar seus apoiadores pelas redes sociais para pressionar ministros do TSE. Seu objetivo é evitar uma condenação unânime e recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), mantendo-se na mídia como vítima de suposta perseguição política. O general Braga Netto, vice na sua chapa, que também é réu no processo, tem chance de escapar da condenação.


A cúpula do PL já trabalha com o cenário de Bolsonaro fora da disputa eleitoral. Suas declarações de que pretende se candidatar a vereador no Rio de janeiro, nas eleições do próximo ano, são coisa de quem está fora da realidade, no labirinto mental em que se enroscou. Já Braga Netto, não; em abril, o Ministério Público Eleitoral defendeu a rejeição das acusações contra ele. Caso escape da condenação, o que é mais provável, pode ser lançado candidato a prefeito do Rio de Janeiro, onde certamente teria a mesma base de apoio de Bolsonaro, inclusive das milícias. O prefeito Eduardo Paes (PSD) apoiou Lula nas eleições passadas.


Como foi o caso? Bolsonaro reuniu os embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada para denunciar a atuação do TSE, principalmente do seu presidente, ministro Alexandre de Moraes, acusando-o do propósito de fraudar as eleições nas urnas eletrônicas, sem apresentação de provas. Ocorre que as investigações sobre o 8 de janeiro também estão complicando a situação do ex-presidente. Mesmo que novas provas não sejam incorporadas ao processo, como a minuta do decreto de golpe encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, ou as gravações do celular do seu ex-ajudante de ordens, coronel Mauro Barbosa Cid, apreendido pela Polícia Federal.


Cenários


Além disso, a condenação de Bolsonaro pode criar jurisprudência para outros julgamentos de políticos acusados de crimes eleitorais, entre os quais as denúncias vazias contra as urnas eletrônicas. Nesse caso, haverá um strike nas bancadas bolsonaristas. Pode ser um revés ainda maior para o PL, de Valdemar Costa Neto, que trabalha para que Bolsonaro mantenha sua influência política, como o grande eleitor da legenda. Seu maior trunfo é a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, mas apenas para as eleições de 2026, em Brasília, porque não há eleições para vereador e prefeito na capital federal. Ela postularia uma vaga no Senado.


A inelegibilidade de Bolsonaro abre caminho para a reeleição de Lula, mas também para a despolarização política, com fragmentação da extrema direita ao centro político. É também um desafio para o presidente Lula, que precisa manter uma ampla coalizão de governo e uma maioria precária no Congresso, que até agora se estruturou graças à polarização política. Caso seu governo perca popularidade, alternativas surgirão na própria Esplanada dos Ministérios.


No momento, os principais candidatos ao espólio eleitoral de Bolsonaro não são homens da extrema direita, cultivam a imagem de políticos conservadores, porém esclarecidos: os governadores de Minas, Romeu Zema (Novo), que está no segundo mandato, e o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), que poderá optar pela reeleição. Nenhum dos dois é ligado a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que precisará ter um candidato competitivo que canalize os votos de Bolsonaro.


O cenário com Bolsonaro enfraquecido aponta também para um quadro de realinhamento de forças nas eleições municipais. Como na velha política de conciliação entre luzias (liberais) e saquaremas (conservadores) do Império, o fato de haver uma ampla coalizão de governo não significa que seus integrantes esqueçam suas disputas nas eleições locais. É aí que Bolsonaro pode testar sua força.

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