Povo Karapotó Plaki-ô resgata tradição milenar com projeto apoiado pela Secult
19/04/25
By:
Redação
No agreste alagoano, ação revitaliza a cerâmica e reacende a identidade cultural do povo originário

Às margens da BR-101, no km 211, em uma região conhecida como Salobro, pulsa o coração da Aldeia Karapotó Plaki-ô, onde um novo capítulo está sendo moldado com barro, fogo e ancestralidade. Nessa terra de luta e memória, no município de São Sebastião, no agreste alagoano, a cerâmica, moldada pelas mãos das mulheres, das crianças e da história, volta a florescer como símbolo vivo de resistência, pertencimento e esperança.
Em meio à batalha contínua pelo reconhecimento territorial e à preservação de sua identidade originária, o Governo de Alagoas celebra o renascimento de uma tradição milenar com o projeto “A Identidade do Povo Karapotó Plaki-ô”, realizado pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), em parceria com a própria comunidade indígena. A iniciativa reacende o saber ceramista como herança viva do povo Karapotó e reforça o compromisso do Estado com a valorização da diversidade cultural que molda as raízes alagoanas.
A ação ganhou forma com a construção de um forno tradicional de cerâmica no território indígena, símbolo da união entre o passado e o presente. Mais do que infraestrutura, o forno se tornou um espaço de memória afetiva e criação coletiva, onde técnicas ancestrais são repassadas, reinventadas e celebradas por todas as gerações.
“A força da cultura indígena é o que nos conecta com as raízes mais profundas da nossa história. Visitar a Aldeia Karapotó Plaki-ô foi uma experiência que tocou minha alma. Vi a arte brotar das mãos dos moradores, ouvi seus cantos, senti o calor do forno aceso com esperança e tradição. Garantir que essas vozes sejam ouvidas é o que nos move, que esses saberes sejam preservados, e que o povo Karapotó Plaki-ô tenha cada vez mais orgulho da sua identidade”, disse a secretária de Estado da Cultura e Economia Criativa, Mellina Freitas.
“Quando falamos em preservação cultural, não estamos apenas falando de arte, estamos falando de identidade. E a cultura Karapotó, com sua cerâmica rica em significado, nos ensina mais do que técnicas, ela nos ensina a fortalecer nossa alma como povo, a reconhecer e valorizar as raízes que nos tornam quem somos”, reforça a gestora.
O saber que resiste
Segundo o artista plástico Roniekson Okobayevo, que atuou na orientação artística do projeto, a cerâmica sempre foi uma linguagem sagrada para os Karapotó Plaki-ô. Carregada de símbolos que representam o ciclo da vida, os rios, os espíritos protetores e os caminhos ancestrais, cada peça é um testemunho da memória coletiva da comunidade.
Contudo, o saber ceramista esteve por muito tempo ameaçado de desaparecer. A falta de incentivo, a ausência de repasse geracional e o avanço de outras culturas sobre o território fragilizaram essa prática tão essencial. “A cerâmica corria o risco de se tornar apenas lembrança. Era preciso agir, ouvir as anciãs e despertar nos mais jovens o desejo de continuar essa tradição”, conta Roniekson.
Foi nesse contexto que nasceu a proposta de construir o forno na aldeia, fruto de rodas de conversa, escutas e trabalho coletivo. Cada tijolo assentado foi testemunha de uma reconstrução afetiva.
“Falo com muito orgulho e muito prazer sobre o meu povo, e também sobre o apoio que estamos recebendo hoje do Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura. É muito importante ver esse interesse em conhecer nosso passado, em valorizar o que os nossos antepassados deixaram. Só tenho a agradecer esse grande apoio que estamos recebendo, especialmente no resgate histórico do nosso povo, através da cerâmica”, disse o Pajé Auro.
Forno aceso, futuro aquecido
As oficinas, conduzidas por lideranças e artesãos da comunidade com apoio técnico da Secult, se tornaram um espaço de cura e reencontro.
“Participei da oficina e foi muito gratificante. Estou muito feliz e quero ensinar às crianças, porque a gente não pode perder a nossa cultura. A gente colocou a mão no barro, fez pote, panela, máscaras. Eu não fazia cerâmica antes, mas graças a Deus aprendi, e hoje estou muito feliz por estar ajudando a resgatar a cultura para as nossas crianças”, disse Vandelita dos Santos, uma das participantes do projeto.
“É como assistir a um sonho antigo ganhando forma diante dos nossos olhos, um sonho moldado em barro, memória e resistência. Esse resgate não é só cultural — é uma reafirmação de quem somos. Ele fortalece os laços, cura feridas invisíveis e planta novas sementes de esperança”, afirma Roniekson.
Fonte: Alagoas 24 Horas
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