Sindicatos mobilizam 800 mil na França em greve contra austeridade de Macron
19/09/25
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Centrais sindicais realizam o maior movimento desde 2023, paralisando transportes e serviços públicos e colocando o novo premiê Lecornu sob forte pressão política

A França vive nesta quinta-feira (18) a maior greve nacional em anos, com sindicatos unidos contra os planos de austeridade e exigindo mais verbas para serviços públicos, impostos sobre os mais ricos e reversão da reforma da Previdência.
A mobilização desafia diretamente o presidente Emmanuel Macron e coloca o novo primeiro-ministro Sébastien Lecornu diante de sua primeira grande prova política, apenas uma semana após assumir o cargo.
Oito centrais estão à frente do movimento: FDT, CGT, FO, CFE-CGC, CFTC, Unsa, FSU e Solidaires. Trata-se da primeira vez desde junho de 2023 que essas entidades marcham lado a lado — na ocasião, uniram forças contra a reforma da Previdência que elevou de 62 para 64 anos a idade mínima de aposentadoria.
As autoridades estimam em 200 mil os manifestantes na parte da manhã, enquanto a central CGT fala em 400 mil nas ruas. A expectativa do ministério do Interior é de até 800 mil participantes em todo o país, distribuídos em 250 marchas convocadas.
O tom dos protestos reflete a insatisfação acumulada desde a reforma da Previdência, aprovada em 2023 por decreto, que elevou de 62 para 64 anos a idade mínima para aposentadoria. Para os sindicatos, trata-se de uma sequência de ataques contra os trabalhadores.
“Basta de sacrifícios para o mundo do trabalho”, declarou Sophie Binet, líder da CGT, lembrando que as reformas anteriores não impediram o aumento da dívida pública. “É a rua que faz o orçamento e, se Lecornu não entender isso, será ele quem vai acabar na rua”, disse Binet.
Marylise Léon, da CFDT, pediu um “orçamento de justiça”, com esforço repartido de forma mais equitativa. “O mundo do trabalho não pode ser o único a contribuir”, disse. “Não podemos aceitar que grandes empresas, que recebem mais de €200 bilhões em subsídios públicos, se isentem totalmente de qualquer esforço”, completou.
Na nota conjunta, as oito centrais denunciaram “uma brutalidade sem precedentes” e criticaram um governo que “mais uma vez faz com que paguem as trabalhadoras e os trabalhadores, os precários, os aposentados, os doentes”. Em Paris, o cortejo partiu da praça da Bastilha sob forte aparato policial, anunciando palavras de ordem como “Macron demissão”.
Os impactos da greve atingem diversos setores. O metrô de Paris funciona com apenas 3 das 16 linhas operando normalmente — as automáticas, sem condutor. As demais circulam apenas nos horários de pico e permanecem fechadas no restante do dia. Na saúde, a paralisação é quase total em farmácias e consultórios de fisioterapia. A Federação dos Farmacêuticos de Ofício (FSPF) informou que 18 mil das 20 mil farmácias do país estão fechadas.
Médicos e enfermeiros também aderiram ao movimento, enquanto hospitais funcionam com equipes mínimas requisitadas pela administração. Na educação, o sindicato Snes-FSU contabiliza 45% de professores em greve em colégios e liceus. Em Paris, ao menos 90 escolas não abriram as portas. Estudantes também participaram: no liceu Thiers, em Marselha, cerca de cem jovens ergueram barricadas com palavras de ordem em apoio à Palestina.
Na setor energético, a greve reduziu em 1,1 gigawatt a produção nuclear da EDF, após trabalhadores diminuírem a potência do reator Flamanville 1. Já na indústria química, mais de 150 empresas registraram paralisações, entre elas TotalEnergies, Sanofi e Arkema. Para conter bloqueios e eventuais confrontos, o governo mobilizou 80 mil a gentes policiais, além de 24 veículos blindados e drones de vigilância. “Onde houver depredação, seremos implacáveis”, disse o ministro do Interior, Bruno Retailleau.
Logo cedo, a polícia avançou para liberar um depósito de ônibus bloqueado em Paris. Até as 14h (9h em Brasília), o ministério do Interior registrava 99 detenções em todo o país, sendo 15 na capital e 22 em Marselha, onde uma operação policial controlou manifestantes em um shopping.
Contexto político: Lecornu acuado
O pano de fundo da paralisação é a instabilidade política que marcou o último ano. Macron nomeou Lecornu como terceiro primeiro-ministro em apenas doze meses, após as quedas de François Bayrou e Michel Barnier em meio a derrotas parlamentares ligadas ao orçamento.
Bayrou foi derrubado em 8 de setembro, após perder um voto de confiança motivado por seu plano de cortar €44 bilhões em 2026. A crise levou a agência Fitch a rebaixar a nota de crédito da França, em meio a uma dívida de 114% do PIB e déficit estimado em 5,4% do PIB neste ano.
Lecornu assumiu prometendo uma “ruptura profunda” com seus antecessores, mas enfrenta baixa popularidade e uma Assembleia Nacional paralisada desde as eleições antecipadas de 2024, quando nenhum campo político conquistou maioria absoluta. A governabilidade depende agora de negociações incertas com socialistas e republicanos de direita.
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