Macroalgas e aquicultura transformam o agro catarinense com inovação e sustentabilidade
Biofertilizantes naturais impulsionam a produção agrícola, enquanto o cultivo de peixes em cavas reaproveitadas redefine a piscicultura no Estado
Por Redação RT Notícias· 5 min de leitura

O agronegócio é um dos pilares de Santa Catarina, contribuindo com 30% do PIB do Estado. Entre as atividades em expansão, destaque para a criação de tilápias em cavas e o cultivo de macroalgas, que estão transformando o setor. Antes limitadas às águas, as macroalgas agora ganham protagonismo na produção agrícola, impulsionando colheitas e abrindo novas oportunidades para o desenvolvimento do agro catarinense.
Uma cadeia produtiva em constante evolução. O que antes era apenas uma promessa agora se torna realidade: as macroalgas conquistam espaço e melhoram a produção agrícola em Santa Catarina.
Do mar para o campo, elas se destacam como biofertilizantes 100% naturais, revolucionando a agricultura catarinense. Em São Pedro de Alcântara, a 35 km da capital, essa inovação já está criando raízes. Os resultados aparecem tanto no solo quanto na economia local, com produtores adotando novas tecnologias e aumentando a produtividade a cada safra.
Os benefícios das macroalgas
A macroalga não apenas fortalece as plantas, mas também reduz custos e aumenta a eficiência da produção agrícola. Além disso, contribui para a durabilidade dos alimentos: produtos como alface, que muitas vezes chegam ao mercado e se deterioram rapidamente, passam a ter um aumento de três a quatro dias no tempo de prateleira.
O biofertilizante produzido a partir da macroalga pode ser até três vezes mais econômico em comparação a produtos biológicos convencionais. Essa inovação atende à crescente demanda dos consumidores por alimentos mais seguros e em conformidade com padrões de qualidade.
A validação do extrato em diferentes culturas do agronegócio catarinense foi a primeira etapa desse processo. Registrado no Ministério da Agricultura como fertilizante orgânico, o produto conta com protocolos de aplicação ajustados às necessidades específicas de cada cultura, garantindo maior eficiência e rendimento.
Com isso, a principal intenção é elevar a produtividade no campo, beneficiando tanto os produtores quanto os consumidores finais, que recebem alimentos de melhor qualidade e com maior segurança alimentar.
Pesquisas da Epagri demonstraram que a macroalga Kappaphycus alvarezii desempenha um papel significativo na captura de dióxido de carbono da atmosfera, contribuindo para o combate ao efeito estufa. Com a expansão das fazendas marinhas em Santa Catarina, estima-se que o cultivo seja capaz de sequestrar mais de 2.500 toneladas de carbono por ano.
Atualmente, mais de 50 produtores no Estado já aderiram a essa iniciativa, reforçando seu potencial ambiental e econômico.
Um dos grandes desafios dessa atividade tem sido o desenvolvimento de maquinários para o beneficiamento, especialmente diante do aumento da demanda. Enquanto isso, o plantio das mudas para a nova safra já está em andamento, consolidando uma revolução verde que conecta o mar e a terra em uma cadeia produtiva sustentável.
Esse modelo pode ser um diferencial estratégico para o agronegócio catarinense, que se caracteriza pela agricultura familiar em pequenas propriedades. Com acesso a um produto de custo mais baixo, os produtores conseguem aumentar a rentabilidade, reduzir despesas e ampliar a produção, impulsionando o desenvolvimento econômico.
Além disso, essa integração de macroalgas e ciência está construindo um futuro promissor, com alimentos mais saudáveis, resistentes e de maior qualidade, beneficiando tanto o mercado quanto os consumidores.
Inovação sustentável na alimentação de peixes
A inclusão de dietas alternativas à base de macroalgas na alimentação de tainhas está revolucionando a aquicultura, oferecendo uma solução mais sustentável e econômica. Essa abordagem melhora a saúde dos peixes, otimiza a produção, reduz a dependência de rações tradicionais e minimiza os impactos ambientais.
Em tubos de ensaio, entre pós finos e cristais de sal, a macroalga Kappaphycus alvarezii demonstra todo o seu potencial inovador para o setor. No laboratório de análise fisicoquímica do Labcal, localizado no Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFSC, no Centro de Ciências Agrárias, o mar se transforma em ciência e inovação.
Sob a liderança do professor Giustino Tribuzi, o laboratório se dedica a explorar como cada extração de substâncias abre caminho para novos produtos e alimentos mais saudáveis. O professor destaca que todo alimento que chega à mesa do consumidor precisa ser seguro. Por isso, há anos o trabalho do grupo se concentra em avaliar a segurança dos alimentos, além de propor e sugerir métodos eficazes de higienização e sanificação, garantindo que eles ofereçam benefícios reais ao consumidor final.
Os pesquisadores investigam o grande potencial da macroalga, rica em carragena, antioxidantes e sais minerais, compostos que podem revolucionar várias indústrias. O primeiro produto extraído da alga foi um biofertilizante, mas também existe um subproduto, com alto teor de carragena, antioxidantes e pigmentos, que se destaca como um ingrediente promissor para a indústria alimentícia.
A cada estudo, novos potenciais da macroalga são revelados, mostrando sua estrutura firme e ao mesmo tempo elástica. No laboratório de piscicultura marinha da UFSC, que é pioneiro mundial na reprodução completa da tainha em cativeiro, a macroalga foi incorporada à dieta dos peixes nos últimos 60 dias de cultivo. O resultado foi um impressionante aumento de 20% no peso das tainhas.
Caio Magnotti, do Laboratório de Piscicultura Marinha da UFSC, explica que o uso da macroalga no cultivo de tainhas pode resultar em um ganho de crescimento de 10 a 15% para os peixes, utilizando um recurso que, de outra forma, seria descartado.
Isso não só gera economia em ração, como também torna o processo de cultivo mais eficiente do ponto de vista energético e econômico. Além disso, é possível observar melhorias na qualidade da carne do peixe, com um aumento nos níveis de ômega-3 e ômega-6, substâncias que agregam valor ao filé e contribuem para a saúde da população.
Santa Catarina lidera a produção de tainha no Brasil, mas as grandes oportunidades estão no domínio completo do ciclo de vida da espécie em cativeiro. Desde 2014, a equipe do Lapmar tem aprimorado técnicas de reprodução, tornando possível a produção contínua e escalonada da tainha, garantindo oferta durante todo o ano e, consequentemente, agregando mais valor ao pescado.
A aquicultura possibilita a produção do peixe de forma constante. Embora a desova ocorra entre maio e julho, os peixes podem ser mantidos em tanques, redes no mar ou viveiros escavados com água salgada, como acontece com camarões e tilápias. Isso permite fornecer tainhas durante todo o ano, sem depender da sazonalidade.
Além disso, a pesquisa avança no desenvolvimento de tainhas predominantemente fêmeas, cujas ovas são altamente valorizadas no mercado internacional. Com a combinação entre as redes marinhas e os tanques do laboratório, a tainha ganha novos horizontes, impulsionados pela ciência, mantendo-se uma tradição essencial para a vida e a economia catarinense.
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