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A Resiliência do Autoritarismo e o Desafio de Reconstruir a Democracia no Brasil: Reflexões Pós-8 de Janeiro

  • Foto do escritor: Regis Cavalcante
    Regis Cavalcante
  • 7 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de jan.


A Ruptura de um Paradigma Global

A crença de que o mundo aprofundaria relações multilaterais, com ações progressivamente sustentadas na globalização, ruiu diante da mudança geopolítica iniciada pelos Estados Unidos sob a égide do trumpismo autoritário. Este movimento não apenas redefiniu alianças internacionais, mas rasgou princípios fundamentais de soberania e autodeterminação dos povos, abrindo espaço para um retrocesso democrático de escala global. No Brasil, os efeitos dessa erosão se manifestaram de forma aguda entre 2019 e 2022, período marcado pelo desmonte institucional, pela retórica anti-democrática e pela exacerbação de divisões sociais.

Embora o campo progressista tenha vencido eleitoralmente o ciclo autoritário em 2022, sua vitória não significou a neutralização da ameaça. O governo eleito permanece minoritário no Congresso Nacional, enfrentando uma crise dupla: de legitimidade das instituições e de funcionalidade do sistema político. As emendas impositivas, mecanismos que esvaziam o planejamento público e fortalecem o clientelismo, exemplificam como a arquitetura política favorece a fragmentação em detrimento de grandes pactos nacionais.

Este cenário configura uma crise de governabilidade multifacetada: uma crise institucional, que tensiona as relações entre os Poderes da República, e uma crise de legitimidade, que distancia o sistema político dos anseios do eleitorado. Juntas, alimentam a nostalgia autoritária em segmentos importantes da população, que passam a ver soluções centralizadas e iliberais como respostas à ineficiência e à fragmentação.

As eleições municipais de 2024 demonstraram a inquietante resiliência da extrema direita e um preocupante descolamento entre as conquistas materiais de governo e a percepção popular. Ficou claro que a restauração democrática não se opera apenas pela via eleitoral, mas demanda a reconstrução cotidiana de vínculos de confiança, a comunicação eficaz de políticas públicas e a geração de resultados tangíveis na vida das pessoas.

Os eventos do 8 de janeiro de 2023 – o ataque às sedes dos Três Poderes – emergem como marco simbólico máximo desta crise. Mais do que um episódio de violência política, eles representam a explosão de um descontentamento manipulado, da desinformação institucionalizada e do desprezo pelos pilares da convivência democrática. Lembrar o 8 de janeiro é, portanto, reafirmar um compromisso ativo com a defesa das instituições. Mas é também ir além: é reconhecer que a democracia não se sustenta apenas pela repressão aos seus inimigos, mas pela construção ativa de uma sociedade mais justa, inclusiva e fraterna.

É neste ponto que a reflexão deve se conectar com um projeto de mundo. A resposta ao autoritarismo e ao iliberalismo não pode ser apenas defensiva ou nacional. Deve ser a reafirmação positiva de um projeto global solidário, inclusivo e fraterno. Um projeto que recoloque a cooperação multilateral acima da rivalidade predatória. Priorize políticas de redução das desigualdades absurdas, entendendo que a fratura social é o combustível do autoritarismo. Com força e determinação promova uma inclusão substantiva, que dê voz e vez a minorias históricas e garanta direitos básicos como dignidade, alimentação e educação para todos.
Por último, restaure a fé no processo político através da transparência, do diálogo e da ética pública.

O feixe de crises brasileiras – de governabilidade, institucional e de legitimidade – exige mais do que ajustes táticos. Exige um esforço conjunto de todo o campo democrático para reformar o sistema político, tornando-o menos vulnerável ao clientelismo e mais representativo; para fortalecer a cultura cívica, valorizando a educação para a democracia e o combate à desinformação; e para reconectar as agendas de governo com as urgências do povo.

A ameaça autoritária não foi embora. Ela se adapta e se alimenta das nossas fraquezas institucionais e das nossas falhas em construir um futuro compartilhado. A memória do 8 de janeiro e a defesa de um mundo solidário nos chamam à responsabilidade. É preciso, estar atento e forte. Atento para não subestimar os riscos que perduram. Forte para construir, no lugar da política do esgarçamento, a política do encontro; no lugar da fratura, o pacto; e no lugar do autoritarismo excludente, uma democracia vibrante, socialmente justa e profundamente enraizada no respeito à vontade popular e na defesa intransigente dos direitos humanos. Esta é a tarefa inadiável do nosso tempo.

Regis Cavalcante é jornalista e professor da Ufal.

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