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Disputa entre Lula e Flávio limita espaço da terceira via nas eleições

  • Foto do escritor: Luiz Carlos Azedo
    Luiz Carlos Azedo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

No cenário principal de primeiro turno, Lula aparece com 43% das intenções de voto, contra 38% de Flávio Bolsonaro. Brancos, nulos e eleitores que dizem não votar somam 17%

A pesquisa Genial/Quaest divulgada em fevereiro mostra que o país chega à disputa presidencial de 2026 profundamente dividido, tanto do ponto de vista ideológico quanto geográfico, social e emocional. Luiz Inácio Lula da Silva lidera todos os cenários de primeiro e segundo turno, mas essa liderança convive com sinais claros de desgaste e com a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como adversário competitivo. O resultado é um quadro de vantagem numérica para o presidente, porém instável e longe de conforto.

No cenário principal de primeiro turno, Lula aparece com 43% das intenções de voto, contra 38% de Flávio. Brancos, nulos e eleitores que dizem não votar somam 17%, enquanto 2% permanecem indecisos. É uma polarização estrutural, entre dois polos que abduzem o sistema político-partidário. Há pouco espaço para alternativas de terceira via trafegando pelo centro. A eleição é um embate direto entre esquerda e direita, como em 2018 e 2022, já no primeiro turno.

Segundo Felipe Nunes, responsável pela pesquisa, essa divisão também se expressa de forma clara quando se observa a avaliação do governo. Hoje, 49% desaprovam o trabalho de Lula, enquanto 45% aprovam. Na avaliação qualitativa, 39% consideram o governo ruim ou péssimo, 33% o avaliam como bom ou ótimo e 26% o classificam como regular, o que gera um saldo negativo de seis pontos.

Esses números permanecem estáveis desde outubro de 2025, com opiniões cristalizadas, pouco permeáveis a fatos novos e altamente resistentes a mudanças abruptas. Mesmo liderando em todos os cenários, Lula enfrenta um grande problema: 57% dos entrevistados afirmam que ele não merece mais quatro anos como presidente, contra apenas 39% que defendem um quarto mandato.

Esse descompasso entre liderança eleitoral e desejo de continuidade mostra que a rejeição ao adversário é fator que desequilibra a disputa. E revela uma postura defensiva dos eleitores, motivada pelo medo da volta do bolsonarismo e não por um projeto político de nação que empolgue. Entretanto, pegou de surpresa os setores que apostavam numa alternativa de centro capaz de derrotar Lula, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Foi muito rápida a consolidação de Flávio como principal nome da oposição. Desde sua indicação pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, cresceu oito pontos em cenários mais amplos, enquanto Lula oscilou levemente para baixo e candidaturas como a de Ratinho Jr. perderam fôlego. O senador conseguiu algo que, até então, parecia improvável: unificar o eleitorado bolsonarista (92% votam nele), atrair a maioria da direita não bolsonarista (65%) e se tornar, de fato, o candidato mais viável do campo conservador.

Os independentes

Seu desafio é o eleitor independente, aquele segmento que decide eleições dessa natureza. Mas a diferença de Lula para Flávio nessa fatia do eleitorado caiu de 16 pontos, em janeiro, para apenas cinco pontos. A vantagem de Lula em um eventual segundo turno contra o senador caiu de 10 para cinco pontos. O sucesso do candidato de oposição se deve ao “dedazo” do pai, mas não apenas. Há um deslocamento de eleitores independentes, que criticavam a polarização.

Nesse aspecto, a estratégia de uma frente de esquerda adotada por Lula no primeiro turno das eleições, a mesma tática de 2022, pode criar mais dificuldades para sua reeleição do que se imagina. O Lula pintado para a guerra para unir a esquerda distancia o eleitor de centro. Enquanto isso, Flávio tenta combinar o antipetismo radical com uma imagem de candidato da pacificação. Não parece, mas a proposta de anistia se encaixa na narrativa de que “Flávio não é tão radical quanto o pai”.

Hoje, 41% não querem a continuidade de Lula no poder, enquanto 44% têm medo da volta da família Bolsonaro. Ou seja, as rejeições cruzadas são a tendência dominante. Lula ainda tem maior potencial de voto entre independentes, mas essa vantagem está caindo.

A estratégia de lançamento de vários candidatos de centro era considerada uma boa alternativa para a candidatura de Tarcísio, de olho na captura desses eleitores independentes no segundo turno. Agora, foi atropelada por Flávio. Os governadores do Paraná, Ratinho Jr., e de Goiás, Ronaldo Caiado, ambos do PSD, estão sendo comprimidos pela polarização. O governador gaúcho Eduardo Leite nem se fala.

A terceira via precisaria do eleitorado bolsonarista para se viabilizar, mas isso é uma missão impossível com Flávio na disputa. Para crescer fora do bolsonarismo, precisa afastar-se dele. Porém, com isso, perde o eleitorado mais conservador.

Trocando em miúdos: mesmo que não aconteça nada de extraordinário, teremos uma eleição dramática, muito radicalizada, na qual a narrativa de Lula, ao combinar o discurso da “economia do afeto” com a “cultura de rechaço”, ocupa todo o espaço da esquerda, mas enfrenta dificuldades ao centro, que está sendo atraído pelo bolsonarismo mais uma vez.
 
 
 

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