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Dois alagoanos: Paulo Elisiário Nunes e Adalberto Timóteo da Silva

  • Foto do escritor: Ivan Alves Filho
    Ivan Alves Filho
  • 25 de fev.
  • 3 min de leitura
Paulo Elisiário Nunes foi uma das figuras mais extraordinárias que conheci em toda minha vida. Alagoano, descendente de índios e negros, dedicou toda sua existência à libertação do povo brasileiro, e isso desde a juventude. 

Paulinho, como nós o chamávamos, aproximou-se do PCB logo após a Declaração de Março de 1958, partindo, em 1963, para Moscou, onde cursaria a Escola de Quadros do PCUS. Ao retornar ao Brasil, em 1965, mergulhou imediatamente na clandestinidade. Viveu parte da vida escondido, sem contato com a família de origem, ou na cadeia. Mas nunca esmoreceu, nem durante as torturas terríveis que sofreu, em Juiz de Fora. Ao seu lado, sempre, sua companheira Geralda, a querida Baixinha. Certa vez - lá se vão algumas dezenas de anos - eu comentei com sua filha em Belo Horizonte, em um encontro partidário, que, se eu fosse mencionar cinco pessoas extraordinárias que conheci na vida, seu pai estaria entre elas. Mantenho tranquilamente o que digo até hoje. 

De Paulo Elisiário eu ouvi, pela primeira vez de um dirigente comunista, que o Estado pelo qual deveríamos lutar seria “formalmente social-democrata”, ou seja, deveria integrar os valores do liberalismo à luta pelas mudanças sociais. De um lado, se não deveríamos nos limitar a gerir o capitalismo, como os social-democratas o fizeram, teríamos, de outro, que reconhecer a importância do liberalismo clássico, dos direitos humanos à liberdade de reunião e de opinião. Era uma conquista da Humanidade, valores da civilização. O nosso caminho seria democrático. 

Pouco antes de falecer, Giocondo Dias comentou com três ou quatro companheiros, se tanto, que Paulo Elisiário e Salomão Malina eram os dois maiores quadros do Partido e que tanto um quanto o outro poderiam substituí-lo na secretaria geral. Coloquei essa informação na versão original da minha modesta biografia sobre o Giocondo e repassei ao Paulinho Elisiário para uma leitura atenta, mas ele pediu para que eu retirasse essa passagem. Não concordei e mantive. E saiu dessa forma no livro. 

Não há como deixar de lembrar uma passagem da obra Vida dos homens ilustres, de Plutarco, quando o grande biógrafo grego de Alexandre e César afirma que “nem sempre...são as ações mais brilhantes as que mostram melhor as virtudes” dos homens. O que ensina mais sobre as pessoas são os pequenos gestos, sem dúvida. Paulo Elisiário Nunes, o querido companheiro Paulinho, com sua humanidade, foi e continua sendo uma referência em minha trajetória pessoal.  

Outro alagoano incomum, Adalberto Timóteo da Silva, também me ensinou muito sobre a vida social brasileira. Oriundo da zona canavieira de seu estado, Adalberto chegou a ser escravizado por três anos em uma fazenda em Sergipe, da qual conseguiria fugir a duras penas, nos anos 30 do século passado. Perambulou pela Bahia, até dar com os costados no interior do Estado do Rio de Janeiro. 

Preso em 1938, em plena vigência do Estado Novo de Getúlio Vargas, foi torturado na cadeia, por integrar uma base de padeiros ligada ao PCB. Na redemocratização de 1945, trabalhou em fábricas cariocas, como tecelão. Viveu na União Soviética nos anos 50, enfrentou clandestinidades e teve sua companheira sacrificada pelos esbirros da ditadura na esteira do golpe de 1964. Quando lembrava sua trajetória no PCB, Adalberto, o Presidente, frequentemente se emocionava. Dizia que devia tudo que era ao Partido. Muitos velhos comunistas diziam isso. 

Fiz o prefácio do seu livro de memórias intitulado Valeu a pena lutar e posso garantir que este título faz justiça a um homem cuja dedicação ao povo brasileiro é o retrato de uma época em que os revolucionários colocavam tudo de lado em nome de seus ideais. "Colocavam tudo de lado para brigar", conforme costumava dizer Oscar Niemeyer.
 
Atuando em Minas Gerais, esses dois alagoanos foram figuras centrais no apoio do Partido Comunistra Brasileiro à frente política criada em torno de Tancredo Neves em 1984-85, coligação esta que conduziu o Brasil a se reencontrar com a Democracia. 

Nessa hora tão difícil da vida brasileira, quando a corrupção, a demagogia e os desmandos de todo tipo são a regra, Paulo Elisiário Nunes e Adalberto Timóteo da Silva permanecem como exemplos em minha memória.  

*Ivan Alves Filho, historiador

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