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Eleição paulistana tem potencial de desagregar o governo

  • Foto do escritor: Luiz Carlos Azedo
    Luiz Carlos Azedo
  • 25 de jan. de 2024
  • 3 min de leitura


Ao se engajar diretamente na disputa paulistana, Lula dá uma guinada à esquerda na sua política de alianças, que se estreita em São Paulo

O envolvimento direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições para a Prefeitura de São Paulo é o epicentro de um realinhamento de forças políticas nas eleições municipais de consequências imprevisíveis. Até agora, Lula está se saindo melhor, com a refiliação de Marta Suplicy ao PT e sua indicação para a vice de Guilherme Boulos (PSol), o candidato de esquerda que lidera as pesquisas. Com isso, o candidato de Lula amplia suas possibilidades eleitorais em direção às periferias paulistas, onde a ex-prefeita é popular, e a sua capacidade de interlocução com a elite de São Paulo, da qual ela faz parte.

Na cidade de São Paulo, Lula venceu as eleições contra Bolsonaro. Obteve 3.677.921 votos, o que corresponde a 53,54% dos votos válidos, ante 3.191.484 votos — ou seja, 46,46% dos votos válidos do ex-presidente. Natural, portanto, que o prefeito Ricardo Nunes (MDB) busque o apoio da extrema direita, não apenas por intermédio do governador Tarcísio de Freitas (PR), mas com o engajamento direto do ex-presidente na sua campanha.

Essa é a condição para que o PL de Valdemar Costa Neto não lance a candidatura do deputado Ricardo Sales (PL-DF), um bolsonarista-raiz, bem-posicionado na pesquisa e que também pode, em acordo, trocar de legenda para ser candidato, se o atual prefeito já tiver batido no seu teto eleitoral. Bolsonaro jogaria com pau de dois bicos.

Entretanto, há que se observar a direção em que Lula e Bolsonaro se movimentam. Ao se engajar diretamente na disputa paulistana, o presidente dá uma guinada à esquerda na sua política de alianças, que se estreita na capital paulista como uma espécie de “frente popular”. Ou seja, não é nem a “frente de esquerda” do primeiro turno das eleições presidenciais, porque o PSB, aliado de primeira hora nas eleições passadas, manteve a candidatura da jovem deputada Tabata Amaral (SP), que será lançada hoje, com o apoio do prefeito do Recife, João Henrique Campos, do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ex-governador Márcio França, ambos ministros de Lula, e do comunicador José Luiz Datena, cotado para ser vice.

Por incrível que pareça, quem está se deslocando em direção ao centro, para sair do isolamento, é Bolsonaro. Seu apoio à candidatura de Nunes atrai para seu campo de alianças o presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), e o ex-presidente Michel Temer. Obviamente, com o terceiro orçamento do país, Nunes é um dos polos de atração das lideranças políticas tradicionais, tendo o apoio da maioria dos vereadores paulistanos. O outro é Tarciso de Freitas, que controla o segundo orçamento do país, com apoio de uma velha raposa da política paulista, o ex-prefeito Gilberto Kassab, presidente do PSD, articulador dessa aliança.

Lula pretende se engajar diretamente na campanha da chapa Boulos-Marta, embora isso gere fricções nas relações com o MDB e o PSB. A ministra Simone Tebet (MDB) e Alckmin fazem cara de paisagem, mas não vão de Boulos — irão de Nunes e Tabata, respectivamente. Ou seja, a “frente ampla” do segundo turno das eleições presidenciais se fragmentou em São Paulo, como estava escrito nas estrelas desde quando Lula, no primeiro turno das eleições presidenciais, se comprometera a apoiar Boulos.

A “calcificação”

Lula venceu as eleições por pequena margem, com 50,09% dos votos válidos, contra 49,01% de Bolsonaro, graças ao apoio dos setores do centro democrático aglutinados em torno de Simone Tebet, no primeiro turno. Nesse sentido, a chamada “calcificação” da polarização entre ambos é um fator de risco. São muitos os sinais de que o presidente pode perder o apoio desses setores do centro democrático.

Segundo o historiador Alberto Aggio, professor titular de História da América Latina na UNESP-Franca (SP), no artigo Uma democracia calcificada?, publicado na revista Será?, de 19 de janeiro, em Recife, o atual governo não é de união nacional nem de frente ampla, porque não incorporou aliados como Alckmin e Simone ao núcleo do poder. É fruto de um arranjo eleitoral agora ameaçado.

“O que se sobrepôs foi um governo identificado, sobretudo, com a figura de Lula, imerso nos escombros do ‘presidencialismo de coalizão’ e sem aliados leais, inteiramente submetido aos ditames e às inevitáveis — além de imponderáveis — negociações com os partidos do chamado Centrão, que dominam o Congresso.”

Isso ocorre num processo de “transformações societárias” em que o Brasil ultrapassou a possibilidade de representação da política a partir do critério de classes. “A sociedade do empreendimento individual expandiu-se, em todos os planos, de cima a baixo, colocando a democracia frente ao dilema ‘decifra-me ou te devoro’”, destaca Aggio.

Trocando em miúdos, a política classista que orienta a ação de Lula e do PT enfrenta dificuldades profundas nessa nova sociedade, para além da correlação de forças políticas desfavorável no Congresso. A hegemonia governista não depende só do poder, mas da liderança moral da sociedade. A disputa de São Paulo reflete essas contradições.

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