ERRO TÁTICO DA DIREITA DEIXA PORTUGAL ENTRE A ESQUERDA E O EXTREMISMO
Bruno Soller
27 de jan.
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A montagem do tabuleiro eleitoral é por vezes mais importante que o processo em si. Identificar previamente os possíveis movimentos e ter a capacidade de aglutinação de projetos semelhantes para que não concorram de maneira fraticida tem sido um dos ensinamentos mais valiosos das eleições democráticas que tem ocorrido pelo mundo. A eleição chilena já havia apontado para um racha na direita, que permitiu a ida de Kast para o segundo turno, enfrentando a única candidatura de esquerda posta. A centro direita saiu derrotada no país sul americano e o candidato extremista, defensor de Pinochet conseguiu vencer uma esquerda reprovada no comando do governo.
A eleição presidencial portuguesa apontou para algo muito parecido. A ida de André Ventura, do Chega, para o segundo turno tem mais a ver com um erro tático de três candidaturas que dividiram a centro-direita do que com uma afirmação do projeto do ex-comentarista de futebol. João Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes, respectivamente, terceiro, quarto e quinto colocados, somaram 39% dos votos, 8% a mais do que Seguro, candidato socialista, que terminou em primeiro lugar, na volta inicial.
Ao analisar a plataforma de governo dos três candidatos fica visível a convergência de posições sobre os principais temas. Líder na Iniciativa Liberal, uma espécie de Partido Novo, em Portugal, João Cotrim de Figueiredo foi o mais votado entre os jovens e é tido como um expoente do liberalismo no país. Com formação em economia e com sólida carreira empresarial, o candidato teve sua experiência no executivo, justamente num governo de Passos Coelho, ex-líder do PSD, partido tradicional da centro-direita, que saiu amplamente vitorioso nas eleições autárquicas e que tem o primeiro-ministro Luís Montenegro.
Almirante da Marinha Portuguesa, Henrique Gouveia Melo desempenhou várias funções no Estado e se destacou publicamente durante a pandemia da Covid-19, sendo o coordenador da Task Force, unidade montada para planejar e executar a vacinação em massa da população. Candidato independente, reuniu entre os seus principais apoiadores egressos do PSD, tendo na figura de Rui Rio, ex-líder do partido e ex-autarca da Camara do Porto, seu principal incentivador político.
Candidato oficial do PSD e ex-presidente do partido, Luís Marques Mendes teve que se equilibrar entre ser um candidato de continuidade do projeto de Marcelo Rabelo de Sousa e trazer alguma novidade para o debate. Com apoio do CDS, partido conservador e cristão, reforçava a posição de centro-direita e disputava os votos de maneira direta contra os demais candidatos que tinham também alguma relação com o PSD.
Esse enfrentamento dentro de um mesmo corredor ideológico foi fatal para as pretensões da centro-direita que acabou morrendo na praia. Trafegando sozinhos em seus espectros, Seguro e Ventura conseguiram passar ao segundo turno. A esquerda portuguesa concentrou suas forças no candidato do Partido Socialista, assim como tem sido praxe nas esquerdas mundiais de evitarem fragmentações em seus campos, tendo quase sempre logrado êxito de passarem para a fase de escrutínio binário, a segunda volta, como se diz em terras lusitanas.
Nessa lógica de dominar seu polo, com candidaturas únicas, a esquerda foi para o segundo turno na Argentina, com Sérgio Massa, deixando Millei e Bullrich brigando pelo campo da direita. No Uruguai, Orsi, da Frente Ampla, garantiu sua vaga na finalíssima, esperando quem seria o vitorioso no enfrentamento entre os candidatos de centro-direita Delgado e Ojeda. Mesma toada do México, onde Cláudia Sheimbaum assistiu as duas candidaturas à direita digladiarem e no modelo de turno único triunfar com grande distancia da segunda colocada Xóchtil Gálvez.
A rejeição a Ventura é a grande arma de Seguro para vencer com certa tranquilidade a presidência da República Portuguesa. As sondagens apontam para uma diferença abissal entre os candidatos. Pesquisa da Pitagórica mostra o socialista com 66% ante 27% do líder do Chega. O eleitor da centro-direita, que foi majoritário no primeiro turno, mas que se dividiu em 3 candidaturas gêmeas, por incrível que pareça, não tem representante nessa fase e terá que decidir entre um alinhamento de ideias macro com Ventura ou a defesa da institucionalidade com Seguro. De um lado ou de outro, o voto será de defesa e não de convicção de projeto para o país.
Os exemplos ao redor do mundo são vários e o sucesso de várias candidaturas passam necessariamente por essa avaliação de cenários prévia. A política é a arte da acomodação. É fundamental entender os tamanhos de cada ente nesse xadrez eleitoral e organizar a disputa de maneira mais racional. Para a já fragmentada direita brasileira, que sonha com o Planalto em outubro, a eleição portuguesa é um bom parâmetro para aprendizado. O risco, no entanto, é como diz a famosa frase do filósofo Epiteto “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.”
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