Desde o Império Romano nunca se pôde pensar qualquer movimento das relações internacionais sem entender o posicionamento de uma porção territorial do mundo, que hoje é conhecida como Europa. Seja nos conflitos internos entre os estados que a compõe ou no trato com o Novo Mundo, com Ásia ou África, a Europa sempre foi centro das discussões no plano global. Do mesmo modo, parecia ser impossível debater os rumos do Brasil sem entender como o Movimento Democrático Brasileiro estaria no jogo. A afirmação dos extremos, todavia, descalibrou esse pêndulo e, hoje, a representação do que seria o equilíbrio perdeu vez e voz.
Depois de diversas guerras entre europeus, sendo as Guerras Mundiais o ápice dos conflitos, o continente caminhou para a formação de uma grande federação de países e o maior exemplo de aliança global entre estados-nação já vista, que foi a formação da Comunidade Europeia. O que era sonho se transformou em concretude e França, Inglaterra, Alemanha e Itália se juntaram em um bloco único, que ainda teve a adesão de mais de uma dezena de países, com os mais variados formatos de governo, para se apresentar ao mundo como União Europeia.
A junção de pessoas do Partido Comunista Brasileiro até egressos da ditadura militar fez do MDB uma grande força de representação e defesa da democracia no Brasil. Foi com Sarney, ex-Arena, partido dos militares, que se converteu ao MDB, que o Brasil teve seu primeiro governo democrático pós 64. O partido foi o responsável por liderar a Constituinte de 88, com Ulysses Guimarães e sempre foi o sustentáculo dos mais variados governos que o país experimentou.
O episódio da captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelo governo norte-americano escancarou algo que se mostrava tendencioso, mas que ainda não era imperativo: a irrelevância da União Europeia nos processos decisórios do plano internacional. Estados Unidos de um lado e uma aliança bélico-econômica, entre Rússia e China, do outro, polarizam o debate mundial e sufocam a Europa, dividida em posicionamentos, relegando-na a um plano de absoluta insignificância. A condenação espanhola a ação americana teve o mesmo impacto que a posição colombiana ou brasileira no processo. A Alemanha pediu análises sobre a legalidade da ação. A França condenou Maduro, mas diz não aprovar o método utilizado pelos americanos. A Itália mostrou mais preocupação com seus nacionais que vivem em solo venezuelano, do que se preocupou com a questão diplomática. Resumindo, se não tivessem se posicionado, em nada mudaria o que aconteceu.
À mesma maneira, no Brasil, o MDB do Pará e de Alagoas, ocupam cargos importantes na Esplanada, enquanto o de São Paulo espera uma candidatura de Tarcísio de Freitas, com a benção bolsonarista, para tentar emplacar Ricardo Nunes ao Palácio dos Bandeirantes. No meio disso tudo, o presidente nacional da sigla garante que o partido não estará nem com Lula, nem com Bolsonaro. Mas, o mais impactante disso tudo, é que essa situação deixou de ser central para a discussão política nacional. Os rumos do MDB já não são preponderantes para entender o cenário eleitoral. PSD, a União Progressista, fruto de uma federação entre União Brasil e PP, além do Republicanos ocupam maior destaque no noticiário e são mais alvo de cobiça dos polos, que o movimento da redemocratização.
Representando 15% do PIB Mundial, um mercado comum com 27 Estados-Membros, a União Europeia está sendo desafiada a provar sua influencia, quando corre riscos advindo dos dois eixos hegemônicos da política global. Se por um lado há um medo latente de uma expansão da guerra russo-ucraniana para seus domínios, do outro a ideia de anexação da Groenlandia, ilha pertencente ao Reino da Dinamarca, membro desde 1973 da comunidade européia, pelos norte-americanos, impacta diretamente na soberania territorial, econômica e militar do bloco.
Com uma queda abrupta de representação, dos mais de 100 deputados nos anos 90 para uma bancada de 42 nomes e a perda do comando das casas legislativas, desde 2019, quando Eunício Oliveira encerrou o mandato como presidente do Senado Federal, o MDB é desafiado a ser novamente uma força de enfrentamento a uma polarização, que flerta com extremos e nem de longe pode ser considerada guardiã da democracia brasileira. O bolsonarismo com seu líder máximo e vários integrantes presos por uma tentativa de golpe militar e o lulopetismo próximo de ditaduras mundo à fora são faces de uma mesma moeda, que precisam um do outro para sobreviverem, apelando para um mundo que se cansou do equilíbrio.
Com os fóruns certos, tanto Europa, quanto o MDB, têm por responsabilidade histórica, a necessidade de retomarem protagonismo. A Organização das Nações Unidas precisa ser revitalizada para que a governança democrática global volte ao centro da discussão da nova ordem mundial.
A Europa é o único player capaz de revigorar esse instrumento de regulação entre os estados-nação por ser a prova viva de que há possibilidade de uma institucionalidade em bloco, que promoveu o avanço social da imensa maioria de seus membros. Portugal, Espanha, Croácia, Irlanda e Grécia são exemplos de como a integração europeia foi mola propulsora para seus desenvolvimentos. No Brasil, só o MDB pode fazer frente a um Centrão sem projeto qualquer de país e que surfa na onda de emendas parlamentares e faro de poder. É o MDB, o legítimo representante de uma era de superação de uma década perdida, assim como a que o país vive hoje.
Só o reestabelecimento do norte democrático é que poderá salvar o mundo e o Brasil de extremos que já não mais contribuem com o desenvolvimento. Não há espaços para recuos. É necessário que se afirme visões de um mundo que precisa de razoabilidade. Não se pode deixar perder a mais importante conquista civilizatória nas duas searas: a governança plural. Polarizar contra as polarizações é o caminho para que um novo futuro possa ser construído, com valores universais como a justiça social, o progresso econômico e a liberdade.
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