Gosto da noite
- Márcia Heliane Gomes

- 9 de jan.
- 2 min de leitura

Tenho uma queda pelo escuro, admito. Enquanto a maioria suspira de alívio quando o sol se despede, como quem fecha a porta atrás de um visitante inconveniente, eu começo a despertar. A noite, para mim, não é ausência de luz – é presença de silêncio.
É curioso: no escuro, não vemos quase nada, e ainda assim enxergamos mais. Talvez porque a noite não exige respostas. Ela nos oferece perguntas – essas pequenas lâminas gentis que vão aparando o excesso que carregamos. Na noite, a consciência se deita ao lado da dúvida sem pressa de resolvê-la. É um tempo onde os pensamentos deixam de ser soldados marchando em fila e viram pássaros que voam sem destino rígido.
Gosto da noite porque nela o mundo retorna ao essencial. O dia é um teatro evidente demais – luz plena, gestos ensaiados, deveres empilhados como cenários que mudam ao toque de um sino invisível. Mas a noite, essa guardiã do indizível, recolhe os adereços e nos devolve aquilo que realmente somos quando ninguém está olhando.
Gosto da noite porque ela revela o que o dia esconde: a possibilidade de viver sem performance. De ser apenas presença – não personagem. Quando a luz enfraquece, o ego também se cansa e tira o uniforme; resta apenas o ser, frágil e infinito ao mesmo tempo.
É nessa hora que tudo parece finalmente ter tempo. As xícaras descansam na pia, os carros diminuem as urgências e até o relógio lateja mais devagar. Na noite, não sou obrigada a ser produtiva, simpática ou eficiente. Posso simplesmente existir, como um gato espreguiçando na sombra.
Gosto da noite porque ela cria cumplicidades. Só quem caminha tarde entende o brilho das janelas acesas, cada uma guardando uma história que jamais saberei. Somos desconhecidos e íntimos ao mesmo tempo – companheiros ocultos de insônia, de trabalho, de sonho.
E há, claro, o céu. Não importa se as estrelas aparecem tímidas ou se ficam esmaecidas pela cidade: gosto dessa ideia de que, acima de tudo, há uma imensidão que só se revela quando o mundo desliga as luzes. A noite nos devolve a profundidade que o dia insiste em simplificar.
E há o silêncio, esse mestre discreto. Ele não ensina pela fala, mas pela amplidão que cria dentro de nós. O silêncio da noite é uma espécie de templo laico: não exige ajoelhar, apenas estar. Nele, percebemos que pensar não é fugir do mundo, mas tocá-lo com mais profundidade.
Talvez gostar da noite seja, no fundo, gostar de espaços onde posso me ouvir. Onde o barulho baixa e a alma fala sem precisar gritar. Onde as sombras não assustam, apenas acolhem.
Eu gosto da noite porque nela percebo que a verdade não brilha – ela cintila. Não rasga a escuridão; apenas a fura com pequenos pontos de sentido, como estrelas. E quando finalmente adormeço, sinto que carreguei um pouco dessa profundidade para dentro do sonho – e que o dia, quando voltar, terá que disputar espaço com essa lembrança luminosa do escuro.
Márcia Heliane Gomes, escritora e editora
Responsável pela Aquarius Produções Culturais
Tiradentes, 15 de dezembro de 2025.









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