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Manoel Francisco dos Santos

  • Foto do escritor: Ivan Alves Filho
    Ivan Alves Filho
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Manoel Francisco dos Santos. Assim escrito, o nome talvez não diga muita coisa, sobretudo aos leitores mais jovens. Quem terá sido ele mesmo? A dúvida se dissipa quando substituímos Manoel Francisco dos Santos por Mané Garrincha. Aí, nem Deus duvida mais.

Eu estava na França quando Mané Garrincha tentou jogar por lá, se não me engano no clube parisiense Red Star, no começo da década de 70. Confesso que torci por ele, mesmo se, àquela altura, o nosso Mané Garrincha já estivesse virtualmente acabado para o futebol. Ele bem que tentara uma volta pouco antes aos campos, envergando as cores do Flamengo. Infelizmente não foi muito bem sucedido, apesar de um recomeço promissor. A violência dos adversários – que o perseguiu por toda a vida profissional – acabou de vez com seu sonho. 

Mas, paixão é paixão, e Mané Garrincha não admitia, em hipótese alguma, parar de jogar bola. Mané, no fundo, era uma criança – uma criança grande (ouvi essa expressão da boca da minha filha, um dia, em relação a uma outra pessoa e retomo aqui). O craque gostava, acima de tudo, de jogar. Nesse sentido, talvez tenha sido o último romântico do futebol brasileiro. Se fosse compositor popular, seria o Roberto Carlos, com toda certeza. Se fosse somente cantor, seria Nelson Gonçalves ou Sílvio Caldas. 

De toda forma, não custava nada torcer por ele. Assim, quando eu soube que Garrincha estava treinando no estádio do Red Star, fui ao seu encalço. Queria desejar-lhe simplesmente boa sorte. Eu me lembrei então que, no passado recente, Mané Garrincha foi uma vez à nossa casa, no Rio de Janeiro, e eu me emocionei quando ele parou de carro e pegou meu pai na portaria do nosso prédio, em Copacabana. Garrincha estava então no auge. Os jornais o apontavam como o Rei dos reis dos estádios, após a conquista da Copa do Chile, em 1962. Elza Soares o acompanhava. Ela era muito ligada ao Partido Comunista Brasileiro, cantando nos aniversários de Luiz Carlos Prestes. Depois do Golpe de 64, os dois partiram para a Itália. Os homens da polícia política invadiram a casa deles, quebrando tudo por ali, e matando na gaiola um pássaro de estimação do Garrincha, em claro aviso da repressão. Agora, quase dez anos depois, a realidade deste jogador era outra, bem diferente. Sua carreira tinha chegado ao fim. 

Mas, quando alcancei a sede do Red Star, Garrincha já havia deixado o clube. Ave Garrincha já havia arribado. Ao que tudo parecia indicar mesmo, as coisas não andavam bem para o seu lado. Decidi que não voltaria mais ali – muito melhor seria guardar a imagem de um Mané Garrincha exuberante, reinando em campo.

O moço com nome de passarinho, o anjo das pernas tortas, que desafiava, com seus dribles desconcertantes, as leis do futebol (e, desconfio, a própria lei da gravidade) amava os gramados. Flamenguista de quatro costados, quantas vezes eu lamentei que ele não jogasse pela minha equipe. Além de mim – essa a mais absoluta convicção que eu tinha –, também lamentava o fato o lateral-esquerdo Jordan, considerado pelo próprio Mané Garrincha o seu maior marcador. Ou o seu "João" preferido. Jordan sofreu um bocado nas mãos dele – ou melhor, nas pernas dele. 

Mas o fato é que Garrincha estava acima do bem e do mal. Ainda que jogando contra o meu querido Flamengo de Joel, Moacir, Henrique, Dida e Babá – a mais sonora linha de ataque do futebol brasileiro de então –, arrebentando com o nosso sistema defensivo, não dava para deixar de admirar alguém como ele. Na expressão feliz de Joaquim Pedro de Andrade, Garrincha era a alegria do povo. Quando Mané pegava na bola, um silêncio profundo e respeitoso (respeitoso não: temeroso, que digo eu!) pairava no ar. Em tempo: Mané também era torcedor nosso, um flamenguista sem igual…

"Eles passarão. Eu passarinho". O poeta gaúcho Mário Quintana fez esses versos pensando também em Garrincha – não há quem me convença do contrário.

Voe em paz no céu dos anjos, Ave Garrincha.

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