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Naná Vasconcelos

  • Foto do escritor: Ivan Alves Filho
    Ivan Alves Filho
  • 24 de fev.
  • 2 min de leitura
O tempo das lembranças, sempre elas...Com o músico Naná Vasconcelos, aprendi muito sobre a música brasileira e internacional. Percussionista extraordinário, pernambucano, Naná tinha um nome barroco: Juvenal de Holanda Vasconcelos. E era de uma simplicidade a toda prova. 

Na França, ele desenvolveu um trabalho com as crianças autistas, no espaço de um hospital dirigido pelo psiquiatra Tony Lainé. Certa vez, apresentando-se para um público em uma sala desse hospital, Naná perguntou a uma das crianças – visivelmente maravilhada com o que ouvia do berimbau tocado por ele – o que achava de sua música. E a criança respondeu, imediatamente: – On dirait le vent! (Dir-se-ia o vento!). Impossível uma definição melhor. 

Músico premiado no mundo inteiro, tendo se apresentado com nomes internacionais como Miles Davis e John Coltrane, Naná tinha a humildade de desenvolver um trabalho terapêutico nos arredores de Paris na segunda metade dos anos 70, quando nos conhecemos. Sua carreira de tantos êxitos incluía espetáculos na França, Suécia e nos Estados Unidos, por exemplo. Tinha um disco dele que eu adorava, Amazonas. 

Eu liguei para Pernambuco e conversei com ele poucos meses antes de sua morte, ocorrida em 2016. Na ocasião em que falei com ele ao telefone, Naná me disse que estava desenvolvendo um trabalho com uma banda de música de Olinda, isto é, voltando de certa forma às suas origens, pois começou como músico de banda. Aliás, uma observação: as bandas estão para os músicos como o circo para os atores. 

Eu tive o prazer de entrevistar Naná Vasconcelos para o Jornal de Debates, que Mattos Pimenta estava retomando, em plena ditadura Geisel, em 1976. O jornal, que teve colaboradores da qualidade de Luiz Carlos Prestes, Aparício Torelly e Rubens Paiva, se notabilizou por sua defesa da Petrobrás e por seu antifascismo, nos anos 40 e 50. Mas, na década de 70, foi sufocado pela ditadura militar, circulando por poucos meses. Eram os tempos dos contratos de risco da ditadura Geisel. A maré não estava para peixe, como se diz. 

Nessa entrevista, Naná Vasconcelos falava de sua volta iminente ao Brasil e ela repercutiu de tal forma que Milton Nascimento – com quem Naná tocou, no período do Som Imaginário –, em uma de suas magistrais composições, entoou pouco depois: “Naná já vem...” 

Faz dez anos que perdemos Naná. Mas ele continua entre nós em forma de saudade. 

 *Ivan Alves Filho, historiador 

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