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Radicalização e guerra de posições nas eleições municipais

  • Foto do escritor: Luiz Carlos Azedo
    Luiz Carlos Azedo
  • 15 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura


Desde o restabelecimento das eleições diretas para a Prefeitura de São Paulo, repete-se um padrão de disputa entre forças de centro-direita e centro-esquerda do tipo Nunes e Boulos

A professora aposentada da USP e pesquisadora do Cebrap Maria Hermínia Tavares, em seu artigo na Folha de S. Paulo, nesta quinta-feira, confrontou a tese de que o realinhamento político das forças de centro-direita em torno da liderança do ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado pelas pesquisas de opinião, deve ser encarado “pelas embaçadas lentes da polarização política”. Segundo ela, essa ideia serve antes para confundir do que para esclarecer.

Maria Hermínia afirma que a tese falha quando avalia que a ampla coalizão que sustenta o governo Lula e a radical oposição “aprisionaram os brasileiros em dois polos irredutíveis”. Além de argumentar que a presença de políticos de centro, como José Múcio Monteiro (PRD-PE) e André Fufuca (PP-AM), dá um caráter moderado ao governo Lula, cita o exemplo das eleições para a Prefeitura de São Paulo para fugir aos esquemas de análise que crava a chamada “calcificação” da polarização política.

Na mais recente pesquisa DataFolha, Guilherme Boulos (PSol), que era favorito, aparece empatado com Ricardo Nunes (MDB), com cerca de 30% das preferências eleitorais. Há “preferência precoce” pelos dois candidatos, um apoiado pelo presidente Luiz Inácio da Silva e o PT, seu partido, e outro pelos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), além do governador Tarcísio de Freitas (PR). Esse resultado atestaria a permanência da polarização nacional, fruto do empenho do presidente Lula e do antecessor Bolsonaro em medir forças no território paulistano, porém, também pode ser consequência do fato de serem mais conhecidos.

Caso isso se mantenha, se repetirá o padrão das eleições paulistanas há quase três décadas. É aí que entram os conceitos de “guerra de posição” e “guerra de movimento”, que surgiram na Itália, após a Primeira Guerra Mundial, nas reflexões de Antonio Gramsci sobre a hegemonia política. Segundo ele, a conquista do Estado numa batalha campal e a utilização da máquina estatal para transformar coercitivamente a sociedade não deveriam ser o “arquétipo” da revolução no Ocidente. Isso teria se esgotado com a tomada do poder pelos comunistas na Rússia, em outubro de 1917. O filósofo e cientista político Giuseppe Vacca, num breve artigo publicado no site Gramsci e o Brasil, intitulado Guerra de posição e de movimento, explica as diferenças.

Nos Cadernos do Cárcere (7), que dariam origem ao eurocomunismo, Gramsci afirma que a guerra manobrada que levou os comunistas ao poder na Rússia não teria êxito no Ocidente, o que se confirmou historicamente: “No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no Ocidente, havia uma justa relação entre Estado e sociedade civil e, diante dos abalos do Estado, podia-se divisar imediatamente uma robusta estrutura de sociedade civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas; isso se podia ver, mais ou menos, de Estado para Estado, mas essa observação exigia um acurado reconhecimento de caráter nacional”.

A disputa em São Paulo

O conceito, resguardada a diferença entre a política da esquerda europeia de 100 anos atrás e a atuação das esquerdas no Brasil nas eleições municipais deste ano, aplica-se ao que está ocorrendo em São Paulo. Maria Hermínia lembra que, desde o restabelecimento das eleições diretas para a Prefeitura de São Paulo, que tem o terceiro orçamento do país, repete-se um padrão de disputa entre forças de centro-direita (Jânio Quadros, Maluf, Pitta, Kassab) e centro esquerda (Erundina, Marta Suplicy, José Serra, Haddad, Bruno Covas). O que houve foi a mudança de eixo nesses campos, que agora passam por uma nova centralidade: PSol e MDB.

Muito interessante a passagem em que Vacca destaca o fato de que as crises econômicas, mesmo as mais graves, não têm repercussão imediata no plano político. “A política está sempre atrasada e bastante atrasada em relação à economia. O aparelho de Estado é muito mais resistente do que se pode imaginar e, com êxito, é capaz de organizar, nos momentos de crise, forças fiéis ao regime muito além do que a profundidade da crise deixaria supor.”

Tem muito a ver com o que está acontecendo em São Paulo. Se, de um lado, o favoritismo de Boulos reproduzia a vitória de Lula sobre Bolsonaro nas eleições presidenciais, a espetacular reação de Nunes, de outro, tem a ver com trincheiras e casamatas difíceis de serem transpostas numa guerra de posições, porque o governo é sempre a forma mais concentrada de poder (arrecada, normatiza e coage), como diria o filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio, social-democrata e positivista.

Nesse contexto, para encerrar a prosa, quem poderia recorrer à guerra de movimento seria a deputada Tabata Amaral (PSDB), se conseguisse transpor a fronteira do centrismo da classe média paulistana e empolgar a periferia da capital, que tão bem conhece, por ter sido criada na Vila Missionária, bairro pobre da periferia de São Paulo. O voto de periferia é muito volátil, sobretudo na populosa Zona Leste. De resto, a situação mais ou menos se reproduz pelo país afora, porque as pesquisas mostram que os prefeitos são mais bem avaliados e influentes nas eleições do que o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro.

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