Para não dizer que eu também não falei de flores

Se existe algo imprescindível em nossas vidas, é a beleza. Oscar Niemeyer dizia sempre que criar o belo era a grande função da Arquitetura. Não havia outra, a rigor.
No rio São Francisco, na virada do século XX para o século XXI, eu conheci uma índia xacriabá que morava com os filhos em uma área isolada, bem isolada mesmo, a alguns quilômetros da sede de São João das Missões, na divisa, quase, de Minas Gerais com a Bahia. Tratava-se de uma reserva indígena, em uma região de caatinga. Eu estava ali preparando um livro de andanças sobre a parte mineira do Velho Chico. A casa da índia Libertina - este o seu nome - era das mais pobres que alguém possa imaginar. Pequena, quase caindo aos pedaços ou desabando, sem nenhum utensílio praticamente em exposição, nem mesmo na minúscula cozinha. Mas...como era bonita aquela casa, toda pintada, por dentro e por fora, com motivos que lembravam os desenhos estampados nas cavernas da região.
Sua casa era uma arte rupestre revivida. Algo que saía do fundo da História e impregnava aquelas paredes. Não por acaso, havia em toda aquela região cerca de 800 pontos de arte rupestre ou parietal, alguns datando de 12 mil anos ou mais. Havia naquela casa, na casa simples da índia Libertina, uma grande quantidade de motivos florais. Assim, a caatinga ficava salpicada de flores, da mesma forma que as estrelas salpicaram o chão de um barraco no morro do Salgueiro, na poesia imortal de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. Tudo por força da imaginação.
Quando eu perguntei a ela por que razão pintava, exatamente, sua resposta foi para mim desconcertante: “eu faço isso para colocar beleza em minha vida”.
E é essa busca pela beleza que fez o escritor e pintor japonês Okakura Kakuzô dizer que “a única flor dotada de asas é a borboleta”. Pois a borboleta, como a índia Libertina, nasceu para voar e ser absolutamente livre.
*Ivan Alves Filho, historiador
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