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Grande Sertão, segundo Dirceu Lindoso

  • Foto do escritor: Ivan Alves Filho
    Ivan Alves Filho
  • 27 de set. de 2023
  • 3 min de leitura


Como sabemos, o conceito é um instrumento formidável de aproximação do estudioso com a realidade objetiva que ele busca apreender em profundidade. Esse vaivém alicerça o conhecimento. Existe até mesmo, no campo da ciência social, que nos interessa mais de perto aqui, uma espécie de hierarquia entre os conceitos. Processo civilizatório e modo de produção, por exemplo, são conceitos-bondes. E há os chamados conceitos intermediários e esse é o caso de nação, dependência, desenvolvimento. Todos têm por finalidade nos ajudar a entender o mundo real, classificando-o aos nossos olhos. Acredito que se não fosse pelos conceitos, nós nos perderíamos em um emaranhado tremendo de fatos e informações. O conceito explica. Só não substitui o real.

Ferramenta, portanto, indispensável, o conceito varia historicamente, como tudo, aliás. Vejamos a noção de sertão, uma corruptela do latim desertum. Lá atrás, no século XVI, o termo sertão designava os arredores de Lisboa, então uma cidade acanhada, mas em pleno crescimento. Com a expansão da urbanização (pelos padrões da época, naturalmente) para além dos muros da capital, ‘sertão’ passaria a denominar algo como os confins de Portugal. Com a consolidação da expansão marítima, por seu turno, o sertão viaja junto, tornando-se sinônimo de mundo não-ocidental. Como o colonialismo, por sua vez, avança na África, reproduz-se, em colônias como Angola, aquilo que já havia ocorrido antes com o termo na capital portuguesa. Ou seja, ele passa a significar tudo que se encontra fora da cidade de Luanda. ‘Sertão’ abarca os territórios do interior, a hinterland. No Brasil não seria muito diferente.

E é isso que Dirceu Lindoso demonstra em seu livro Grande Sertão. Diríamos que tudo se encontra lá. A labuta diária pela sobrevivência. O sebastianismo. As lutas sociais. Os quilombos. O cangaço. Os negros, os brancos e os índios. Em relato histórico que fascina, sem dúvida. Por intermédio dessa obra, percebemos que o entendimento do sertão é, ao mesmo tempo, histórico e geográfico. Mais histórico, até: ou um documento da administração portuguesa não aludia, no século XVIII, que seria necessário levar “o litoral para o sertão” do Brasil? Isto é, a civilização para as terras ignotas...

Grande Sertão é um livro absolutamente apaixonado e apaixonante. E, também, uma obra irretocável sob a ótica da pesquisa e do trabalho de reconstituição histórica. Caminhamos pelas veredas desta obra – pois se trata de um verdadeiro passeio pela História do nosso país – como quem vai ao encontro da mulher amada após um período de ausência: com o coração na mão. O que não exclui a reflexão e o recurso à palavra mais justa. Pelo contrário. Não há contradição alguma nisso – uma atitude válida tanto para os estudos sociais quanto para o amor entre duas pessoas. O velho Antonio Gramsci, pensador e homem de ação marxista, já nos alertava para o fato de que o intelectual sabia mas não sentia e que o povo sentia mas não sabia. Ora, Dirceu Lindoso – como o próprio Gramsci, por sinal – soube romper de forma magistral com essa dicotomia, escrevendo um livro de paixão e um livro de razão. Não por acaso, foi um homem totalmente integrado às lutas do seu tempo. O saudoso escritor, que tive a honra de conhecer em Maceió, já nos deixou. Mas sua obra permanece entre nós.

Em um tour de force dialético, o autor demonstrou que litoral e sertão compõem o modelo de desenvolvimento desigual em um país sofrido como o Brasil. Sofrido e, mesmo assim, belo, muito belo. Como o corpo da mulher amada – ou a paisagem um tanto quanto áspera, igualmente nua, dos nossos sertões e seus inconfundíveis tipos humanos.

Ao encerrar a leitura dos originais deste livro, fiquei com a impressão de que Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Guimarães Rosa adorariam ler Grande Sertão. Todos temos agora a oportunidade de fazer isso por eles.

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