O Acordo UE-Mercosul entra na semana decisiva que pode redefinir o futuro econômico global
Renata Bueno
17 de dez. de 2025
3 min de leitura
Em um mundo ainda marcado pelas cicatrizes da pandemia, pelas tensões geopolíticas e pela urgência climática, é tentador focar em crises imediatas ou em debates polarizados. No entanto, como ex-parlamentar italiana e advogada especializada em direito internacional, afirmo com convicção: o tema de maior relevância atual não é uma eleição distante ou uma cúpula ambiental genérica. É o Acordo Comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que entra nesta semana em uma fase decisiva para sua possível conclusão. Com um cume do Mercosul marcado para 20 de dezembro e pressões crescentes para uma votação final na UE, estamos diante de um momento pivotal que pode moldar o comércio global por décadas.
Após 25 anos de negociações árduas, o acordo político foi alcançado em dezembro de 2024 entre a UE e os quatro membros fundadores do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Agora, em 2025, o texto finalizado aguarda aprovação pelos 27 Estados-membros da UE e pelo Parlamento Europeu. A Comissão Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen, mantém a ambição de assinar o pacto até o final do ano, apesar das resistências. Mas esta semana é crucial: França e Itália, dois pesos-pesados da UE, pressionam por um adiamento da votação final, citando protestos de agricultores preocupados com a concorrência de produtos sul-americanos. Como italiana, entendo essas angústias, o setor agroalimentar é o coração da nossa identidade mediterrânea. Contudo, rejeitar o acordo por medo seria um erro estratégico e míope.
Por quê? Porque o UE-Mercosul não é apenas um tratado comercial; é uma ponte vital entre dois continentes complementares. A UE, com sua economia madura e padrões ambientais rigorosos, ganha acesso a matérias-primas sustentáveis, como soja e carne certificada, além de um mercado de 300 milhões de consumidores no Mercosul. Para o Brasil e seus vizinhos, representa a modernização de cadeias produtivas e a atração de investimentos europeus em energias renováveis e tecnologia. Imagine: tarifas sobre automóveis brasileiros caindo de 10% para zero, abrindo portas para exportações italianas de máquinas e vinhos para a América do Sul. Como empresária no setor lácteo com laços profundos entre Itália e Brasil, através da Mozzarellart Brasil, vejo o potencial para parcerias que preservem a excelência europeia enquanto promovem o desenvolvimento sustentável no Sul Global.
As objeções, é claro, não são infundadas. Agricultores franceses e italianos temem a "inundação" de produtos hormonados ou desmatados da Amazônia. Mas o acordo, em sua versão atual, inclui salvaguardas robustas: cláusulas de sustentabilidade que exigem o cumprimento do Acordo de Paris e proteções para setores sensíveis, como o queijo parmesão e o prosciutto italiano, via indicações geográficas. A França, ironicamente, já impõe barreiras protecionistas em outros acordos, mas aqui o risco é exagerado por narrativas populistas. Como advogada, defendo que o diálogo não o bloqueio, mas sim é o caminho: negociações paralelas podem fortalecer os mecanismos de verificação ambiental, garantindo que o Mercosul adote práticas que atendam aos nossos padrões elevados.
Esta semana decisiva coincide com o cume do Mercosul em Buenos Aires, onde líderes como Lula da Silva e Javier Milei podem sinalizar compromissos adicionais. Se a UE vacilar, perdemos não só uma oportunidade econômica, estimada em €100 bilhões anuais em comércio bilateral, mas também influência geopolítica. Em um cenário de ascensão chinesa e instabilidade americana, o acordo reforça a autonomia estratégica da Europa, diversificando fornecedores e combatendo a dependência de commodities asiáticas. Para a Itália, significa mais exportações para o Brasil, minha segunda pátria, onde a diáspora italiana impulsiona laços culturais e econômicos inigualáveis.
O UE-Mercosul é uma vitória para o multilateralismo, alinhando comércio com sustentabilidade e direitos humanos. Como ex-deputada, vivi as deliberações acaloradas no Parlamento Italiano; sei que o progresso exige coragem. Nesta semana, que optemos pela visão ampla: um mundo mais conectado, próspero e verde. O futuro nos observa e ele começa agora.
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