As datas acima estão todas interligadas. Vem se somar a isso as crises recentes entre os poderes da República, que não param de bater cabeça uns com os outros. E não só: desvios financeiros atingem o INSS, escândalos rondam a Caixa Econômica, tramóias envolvem o Banco Master e suspeições recaem sobre membros do Supremo Tribunal Federal. Não há a menor dúvida: a temperatura está subindo.
Recapitulando. A redemocratização resultou em quatro presidentes presos, dois atingidos por impeachment e um que atropelou a Constituição para se reeleger, já no finalzinho do jogo. Com exceção do período Itamar Franco, temos muito pouco a comemorar, muito pouco mesmo. Convém destacar que o governo Itamar criou o Plano Real, montou a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), inaugurou o Ministério do Meio Ambiente, tudo isso com um grupo de homens públicos da melhor qualidade técnica e moral. Foi o único momento, desde o pós-guerra, que o Brasil se aproximou de programas de peso como o Plano de Metas, de Juscelino Kubitschek, e as Reformas de Base, de João Goulart. Depois disso, parece que a corrupção, a incompetência, a mediocridade e o poder a qualquer preço tiveram um encontro marcado com o país.
Um lutador social, o saudoso camponês Hilário Pinha, me ensinou que precisamos fazer dois movimentos, complementares, para sair de crises tão sérias como as que vêm assolando o Brasil. De um lado, temos de nos dotar de um projeto de nação; de outro; urge construir um instrumento capaz de aplicar este mesmo projeto.
Será que vamos conseguir? Desconfio que a situação brasileira esteja se aproximando daquele ponto que o velho Karl Marx tanto temia ao analisar as dificuldades por que poderiam passar uma sociedade. Ou seja, quando os de cima já não podem comandar e os debaixo não têm projeto alternativo, a sociedade se desagrega.
É precisamente isso que precisamos evitar. E é precisamente isso que realmente me preocupa. Os sinais são cada vez mais claros e avassaladores, em todos os terrenos. Da política institucional à questão social e desta à cultura e perda de identidade e valores, o Brasil desmorona. Só não vê quem não quer - ou quem se locupletou com esse estado de coisas.
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